Ilustração: Frédérique Vayssières

Biblioteca da Escola Básica e Secundária, Valença

Português

Glossário

Aforismo

Expressão que, em poucas palavras, explicita um princípio de alcance moral.

Alegoria

Obra artística e literária onde há a representação de uma realidade abstrata através de algo concreto.

Feudalismo

Princípio que estabelecia a relação entre vassalo e suserano na sociedade feudal da Idade Média; sistema social que tinha essa relação como base.

Folclore

Conjunto das tradições, das lendas, dos costumes e das artes populares de um país ou de uma região.

Indulgências

Perdão completo ou parcial das penas inerentes aos pecados.

Inquisição

O termo refere-se a várias instituições dedicadas à supressão da heresia no seio da Igreja Católica. Inicialmente, foi criada para combater certas doutrinas entre alguns grupos religiosos.

Jerónimos

Mosteiro manuelino, testemunho monumental da riqueza dos Descobrimentos portugueses. Situa-se em Belém, Lisboa.

Redenção

Salvação.

Rudimentar

Simples, não desenvolvido.

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# Quiz: O teatro vicentino

O teatro vicentino

O teatro de Gil Vicente é uma criação original a partir de elementos tradicionais dispersos, legados pela Idade Média. Antes do seu aparecimento, as representações religiosas e profanas não passavam de esboços muito rudimentares. Gil Vicente desenvolveu-os e transformou-os em verdadeiras obras literárias.

O momo consistia num género de espetáculo próprio das solenidades da corte: luxuosamente montado, com encenações aparatosas de castelos, navios, mares, rochedos e figuras humanas que se limitavam à representação mímica de uma ação simbólica. Gil Vicente transformou estes espetáculos mudos em teatro falado.

Além destas formas rudimentares de espetáculo, o dramaturgo teve fontes de inspiração literária, entre as quais o romance de cavalaria.

O teatro vicentino apresenta-se, portanto, muito variado nas suas formas:

O auto pastoril, monólogos ou diálogos de pastores;

A moralidade religiosa, que aborda o tema da Redenção, com figuras alegóricas;

As narrações bíblicas ou de vidas de santos;

A fantasia alegórica, em parte proveniente dos momos;

A farsa episódica, que tem por assunto um simples quadro, ou séries deles soltos;

O auto narrativo, que consiste na transposição teatral de um romance ou de um conto.

O teatro de Gil Vicente é uma criação original e ímpar, que revela um prodigioso poder de invenção e que tem de ser apreciado por nós segundo o seu próprio padrão.

As personagens vicentinas

É enorme a galeria das personagens vicentinas, na sua maioria tipos sociais. A sua psicologia é uma psicologia de grupo social, e não uma psicologia individual. Através delas é-nos dado o comportamento e a mentalidade do fidalgo, do escudeiro, do frade e da alcoviteira, entre outros, mas nem por serem tipos sociais estas personagens deixam de ser indivíduos vivos, com uma presença impressionante.

Os tipos vicentinos abrangem o conjunto da sociedade portuguesa da sua época. Na base está o camponês e no topo os clérigos de vida folgada e os fidalgos presunçosos e fúteis, que vivem do trabalho alheio, ajudados pelos homens de leis e pelos altos funcionários corruptos. O tipo mais frequentemente e duramente satirizado é o clérigo: quase não há peça em que ele não apareça como um alegre gozador da vida.

O Diabo vicentino é muitas vezes o instrumento do paradoxo: ao defender a astrologia, por exemplo, demonstra o seu absurdo.

A linguagem de Gil Vicente

Durante o século XVI, a língua portuguesa estava em mudança e Gil Vicente adotou diversas variantes linguísticas para a mesma palavra. A sua linguagem é intencionalmente enriquecida de variantes: as mesmas palavras aparecem na forma arcaica e na sua forma moderna (para a época), nas formas populares e na forma de corte, na pronúncia portuguesa e na castelhana. Numerosos aforismos, frases feitas populares, passagens de canções, alusões folclóricas e imagens tradicionais ajudam a fazer da língua vicentina uma expressão viva e sugestiva do folclore peninsular.

A crítica em Gil Vicente

A crítica da sociedade feudal na obra de Gil Vicente tem um critério moralista. Ou seja, o fidalgo é condenado pelo seu orgulho, o artífice pela sua cobiça e o clérigo pela sua devassidão. A sua antipatia pelos valores feudais é evidente.

Juntamente com a sátira do clero, nos autos vicentinos é fácil encontrar a crítica de ritos e cerimónias religiosas, especialmente a das indulgências, largamente discutidas no século XVI, a das orações mecânicas e até a das romarias.

Bibliografia:

SARAIVA, António José - Teatro de Gil Vicente. Manuscrito, 1984.

VICENTE, Gil - Teatro de Gil Vicente. Introd. de Gilberto Moura. Ulisseia, 2001.