Ilustração: Frédérique Vayssières

Biblioteca da Escola Básica e Secundária

A compreensão na leitura

A leitura é um processo interativo no qual o leitor cria o sentido do texto, servindo-se simultaneamente dele, dos seus próprios conhecimentos e da sua intenção de leitura.

Os conhecimentos que o aluno desenvolveu sobre o mundo que o rodeia constituem um elemento fulcral na compreensão dos textos que terá que ler. Sem referências, um objeto complexo, como um texto, não é apenas difícil de interpretar, mas, para falar com rigor, não tem significação. Ou seja, a compreensão na leitura só acontece quando se possui um conhecimento prévio com o qual se relaciona a informação fornecida pelo texto. Para compreender, o leitor deve estabelecer relações entre essa informação e os conhecimentos que já detém.

Os alunos tornam-se leitores competentes se os programas curriculares forem ricos em conceitos de todo o tipo: história, geografia, ciência, arte, literatura... Qualquer conhecimento adquirido pode eventualmente ajudá-los na compreensão. Um programa vazio de conceitos pode produzir leitores que não compreendem o que leem. O que os alunos desconhecem constitui uma desvantagem para eles.

A compreensão na leitura resulta da interação entre o leitor, o texto e o contexto. Para favorecer a compreensão, é preciso que as três variáveis se organizem adequadamente:

· O leitor detém os conhecimentos necessários para compreender o texto;

· O texto está adequado ao seu nível;

· O contexto psicológico, social ou físico favorece a sua compreensão.

O professor deve ser um modelo e um guia na atividade intelectual do aluno. Esta abordagem, inspirada em Vygotsky, permite sustentar que, através das suas interações, a criança desenvolve capacidades com quem as possui. O professor pode explicar aos alunos quais são as estratégias utilizadas por um leitor consumado e como elas podem ser aplicadas num contexto funcional.

O ensino da compreensão deve ir mais longe do que o simples facto de se fazerem perguntas ou de se mandar repetir atividades de leitura. é preciso acrescentar uma função explicativa: o professor deve dizer aos alunos porque é que uma resposta não é adequada e como pode utilizar estratégias para chegar a melhores respostas.

O ensino explícito

O ensino explícito da compreensão da leitura caracteriza-se por colocar o aluno numa situação de leitura significativa e integral. é um modelo que procura tornar os leitores autónomos, desenvolvendo neles não só capacidades, mas também estratégias que poderão utilizar de modo flexível segundo a situação. Estas podem ser muito variadas: podem consistir, por exemplo, em encontrar o sentido das palavras desconhecidas recorrendo ao contexto, em extrair as principais ideias de um texto, em construir uma imagem mental de uma personagem ou de um acontecimento.

Etapas do ensino explícito

O ensino explícito sobre a leitura tem como objeto as estratégias de compreensão.

1. Definir a estratégia e precisar a sua utilidade

à partida é importante definir a estratégia, utilizando uma linguagem adequada aos alunos e explicar-lhes porque é que ela lhes será útil para a compreensão de um texto. No entanto, o facto de se ensinar uma estratégia não assegura, só por si, que eles a utilizem nas suas leituras pessoais. é, portanto, necessário, sublinhar a relação entre a sua utilização e o progresso do desempenho do aluno. Exemplo: «Serás capaz de responder corretamente a muito mais perguntas se utilizares... (nomear a estratégia)».

Contudo, explicar uma estratégia de leitura não é uma tarefa fácil e exige uma preparação minuciosa.

2. Tornar o processo transparente

No ensino de uma estratégia de leitura, é necessário explicitar verbalmente o que se passa na mente de um leitor consumado durante o processo. Uma vez que os processos cognitivos não podem ser observados diretamente, os de leitura devem ser ilustrados. Por exemplo, durante uma leitura em voz alta, perante uma palavra desconhecida, o professor pode dizer aos alunos: «Eu não conheço o significado exato desta palavra. Penso que quer dizer xxxx, mas não tenho a certeza. Vamos ver se o resto do texto nos pode ajudar a descobrir o seu significado.» O professor prossegue a leitura e menciona, à medida que avança, os elementos que vêm confirmar, precisar ou infirmar a sua hipótese.

3. Interagir com os alunos e orientá-los para o domínio da estratégia

Consiste em levar os alunos, em seguida, a dominarem a estratégia ensinada dando indícios, fazendo recontos e diminuindo gradualmente a ajuda dada.

4. Favorecer a autonomia na utilização da estratégia

Este momento serve para consolidar as aprendizagens. Nesta etapa o aluno assume quase toda a responsabilidade pela escolha e aplicação da estratégia ensinada. Após algumas utilizações autónomas da estratégia, o professor orienta os alunos que têm dificuldades, a fim de evitar a cristalização de uma aplicação ineficaz.

5. Assegurar a aplicação da estratégia

O professor incentiva o aluno a aplicar a estratégia ensinada nas suas leituras pessoais. Insiste sobre o «quando utilizar essa estratégia». Deve sensibilizar os alunos para o facto de que uma estratégia não se utiliza indiscriminadamente. é preciso avaliar em que momento específico ela será útil à compreensão do texto. Por exemplo, a representação mental será útil na compreensão de um texto narrativo, mas pode não ser adequada no processo de compreensão de um texto abstrato.

Para a autonomia do leitor

O objetivo final do ensino explícito da compreensão da leitura é tornar o aluno autónomo na sua busca de sentido. Duas abordagens tão diferentes como «aprender a ler através da resolução de exercícios» e «aprender a ler, lendo» pecam ambas pelo mesmo excesso: consideram um dado adquirido que o leitor se tornará automaticamente autónomo só por repetir a atividade de leitura. No entanto, não se pode esperar que os alunos se tornem leitores autónomos de forma autónoma. Pelo contrário, é preciso mostrar-lhes como se tornarão autónomos.

Depois de ter colocado a turma em condições favoráveis à compreensão, o professor intervém, primeiro, antes da leitura, mobilizando os conhecimentos dos alunos, pedindo-lhes que façam previsões sobre o conteúdo, levando-os a precisar a sua intenção de leitura. Durante a leitura, o professor pode incitar os alunos a verificarem as suas previsões iniciais e a formularem outras, a relacionarem o conteúdo do texto com os seus conhecimentos. Após a leitura, o professor pode pedir aos alunos que resumam o texto, que verifiquem se a sua intenção de leitura foi satisfeita, que façam uma apreciação sobre o que leram.

O modelo de ensino explícito oferece um quadro interessante ao professor que queira trabalhar ativamente com os alunos a compreensão na leitura. Este modelo propõe etapas específicas, partindo da responsabilização por parte do professor e conduzindo à autonomia dos alunos-leitores.

GIASSON, Jocelyne - A compreensão na leitura. Porto: Edições Asa, 1993.