Biblioteca da Escola Básica e Secundária

História

Glossário

Estado de sítio

Regime especial aplicado em situações excecionais de perigo, de perturbações sociais ou políticas graves, e em que há uma suspensão temporária de alguns direitos e garantias individuais.

Gueto

Bairro onde vivem os membros de uma etnia ou qualquer outro grupo minoritário.

Holocausto

Após a Segunda Guerra Mundial, o termo Holocausto foi utilizado especificamente para se referir ao extermínio de milhões de pessoas que faziam parte de grupos politicamente indesejados pelo então regime nazi fundado por Adolf Hitler.

Kol Nidrei

Oração solene que abre o serviço religioso do «Dia do Perdão».

Taled

Manto branco utilizado pelos homens em alguns rituais religiosos.

Queria voar como uma borboleta

Memórias de uma infância durante o Holocausto: a história de Jana Gofrit

Quando era menina, chamavam-me Janchke.

Nasci na Polónia, em 1935, e vivi com os meus pais na aldeia Biala Rawska, juntamente com outras famílias judias e polacas. Passei aí os primeiros anos da minha infância.

Habitávamos uma casa na rua principal. Em frente, viviam os Neuman, outra família judia. A avó morava no centro da aldeia, junto ao mercado e as minhas tias num bairro só de judeus. Os meus melhores amigos eram os vizinhos polacos Marishka, Ianek e Basha. Gostava de brincar com eles às escondidas e ocultar-me entre os ramos das árvores do jardim que havia nas traseiras da nossa casa. No extremo da aldeia, corria um rio. No inverno, quando o rio congelava, patinávamos sobre o gelo e na primavera, após o degelo, lançávamos barcos de papel das margens até os perdermos de vista.

Eu era uma criança alegre e sorridente, tinha o cabelo encaracolado e as faces rosadas.

Mas rebentou uma guerra terrível e essa infância maravilhosa perdeu-se. Decorria o ano de 1939. Soldados da Alemanha, o país vizinho, invadiram a Polónia. De uniforme cinzento, entraram na aldeia. De seguida, declararam o estado de sítio. A partir das 8 horas da noite, ninguém podia sair de casa. Quem fosse encontrado na rua, seria punido.

Vi a minha mãe coser nos seus casacos, bem como nos do meu pai, estrelas de tecido amarelo.

— Mãe, que estás a coser? — perguntei.

— É um distintivo que devemos trazer nas roupas, sempre que sairmos de casa, — respondeu-me.

— Toda a gente?
— Apenas os judeus, — disse minha mãe.
— Porquê?
— Porque assim o ordenaram os soldados alemães.
— Mas porque razão?
— Para se ficar a saber que somos judeus, — respondeu a minha mãe, com impaciência.
— Porque é que é importante saber quem é judeu? — perguntei.
— Não sei! Assim o ordenaram e assim procedemos! — disse minha mãe, incomodada, continuando a coser o distintivo no casaco cinzento do meu pai. Observei-a. Os seus lábios estavam rígidos e cosia rápida e nervosamente.
— Mãe, queres que te traga o meu casaco? — perguntei.

— Não! Para as crianças não é necessário! — respondeu, assustada, continuando a coser os distintivos nos casacos. À noite, os casacos dos meus pais estavam pendurados no bengaleiro, junto à porta de entrada. Em cada um deles, à frente e atrás, estava cosida uma estrela de tecido amarelo.

Na véspera do Yom Kipur, o Dia do Perdão, na noite de Kol Nidrei, fui com o meu pai à sinagoga do gueto. Ele vestia roupa festiva com o distintivo amarelo sobre a lapela. Eu ia de vestido branco adornado com flores e sapatos de verniz branco. O meu pai levava uma bolsa de veludo, muito macia. Dentro da bolsa encontrava-se o taled.

Quando nos aproximámos, vimos crianças vestidas de branco, a brincar no pátio em frente da sinagoga. Tudo se achava limpo e em ordem.

O meu pai separou-se de mim à porta e entrou. Olhei para dentro. Viam-se colunas altas pintadas de azul da cor do céu, que sustinham um teto branco, amplo e alto. Dezenas de velas ardiam nos candelabros suspensos em redor das colunas, iluminando o local. A sinagoga estava cheia de luz. Viam-se bancos de madeira compridos e centenas de pessoas, rezando, diante deles, envoltas nos seus mantos brancos. O ambiente estava impregnado de santidade. Ouvia as orações e os cânticos.

Era um idioma que não conhecia – o hebreu. Todavia, sabia que era a língua do nosso povo.
Passado algum tempo, saí. As crianças pediram-me para brincarmos. Brincámos em silêncio.
Umas semanas depois, deflagrou um grande incêndio. Vi o fogo. Corri em direção à minha mãe.
— Mãe! — gritei — O que está a arder?
A minha mãe apertou-me ao peito e sussurrou:
— A sinagoga. Os soldados alemães estão a incendiar a sinagoga.

— Porquê, mãe?

Ela abraçou-me e não disse nada.

Fiz seis anos.
Os alemães controlavam a nossa aldeia, Biala Rawska.
Chegou o primeiro dia de aulas.
Marisha, a minha amiga polaca, pediu-me para ir com ela à escola.

Encontrámo-nos de manhã e fomos na companhia de outras crianças, nossas vizinhas. Chegámos à porta da escola. Ali encontrava-se o porteiro. Reconheci-o, pois vivia perto de nossa casa. Saudava os alunos, dizendo: «bons dias» e «sorte nos estudos».
Marisha entrou e eu atrás dela.
— Bons dias, — disse ao porteiro.
— Aonde vais? — perguntou-me.
— Para a escola, primeiro grau — respondi, orgulhosa, enquanto entrava.
O homem colocou-se à minha frente, impedindo-me o acesso.
— Tu não podes, — disse num tom enérgico.
— Mas eu tenho seis anos…
— És judia! — disse — Os judeus não têm direito a estudar. Nesta escola não há lugar para judeus.
Olhei em redor. Marisha e as outras crianças pararam a ouvir.
Tocou a campainha.
Marisha e os companheiros correram para as salas.
Dei meia volta e saí.

Uma noite os soldados alemães ordenaram a todos os judeus que se dirigissem à escola da aldeia.
A minha mãe levou dois sacos com roupa e comida e juntámo-nos aos restantes judeus, que vinham do gueto.
Esperámos nas salas.
De hora a hora, entrava um soldado alemão que lia nomes de uma lista. Os judeus que ouviam os seus apelidos saíam e subiam para carroças puxadas a cavalos, estacionadas no pátio. Os condutores eram habitantes polacos da aldeia. Conhecíamo-los na sua maioria. Nos bons tempos, antes da guerra, costumavam transportar bens para o mercado.
Aguardávamos que lessem os nossos nomes.
O soldado alemão pronunciou o nome da minha avó, das minhas tias e da minha prima Henia.
Nós não fomos chamados.
Foi dada uma ordem e as carroças começaram a andar.
Quando a minha mãe percebeu que ficávamos para trás, correu atrás da carroça, até que os seus olhos, chorosos, a perderam de vista.
Não nos expulsaram porque os alemães precisavam do trabalho da minha mãe como costureira. Melhor modista que ela não havia.
Depois da guerra, soubemos que as carroças transportaram os judeus para a cidade de Tomashov, sendo aí metidos em comboios que os conduziram a Treblinka, onde foram mortos pelos alemães. Entre eles encontravam-se a minha avó, as minhas tias e a prima Henia.
Na aldeia, permaneceram connosco o sapateiro, o ferreiro e alguns outros judeus de cujo trabalho os alemães necessitavam.
As casas do gueto ficaram vazias. Os comércios foram saqueados e o pouco que restou foi roubado.
De uma casa de fotografias, que foi assaltada, voaram fotos de crianças e adultos judeus que ali viveram e já não existem…

A minha mãe fez-me um vestido novo.
Já era noite quando acabou de o coser. Era um vestido de veludo azul com uma gola branca e grande, cheia de pregas. Dei voltas sobre a mesa, enquanto as pregas subiam e desciam.
Minha mãe gritou: «Cuidado não caias».
Mas eu continuei a voar como uma borboleta.
O meu pai entrou em casa. Aproximou-se. Tirou-me da mesa. Nem sequer reparou no meu vestido novo.
— Temos de partir, — disse. — Encontrei-me com o pai da Marisha e ele informou-me de que esta noite vão expulsar os judeus que ainda ficaram na aldeia.
Não havia tempo para perguntas.
Deixámos a casa e corremos em direção ao bosque. Entrámos no curral de uma casa e escondemo-nos por baixo dos feixes de palha.
Pela manhã apareceu a dona da casa que nos trouxe de comer: pão caseiro, redondo, com fiambre. Era amiga da nossa vizinha Moshalkova, que tinha conseguido convencê-la a esconder-nos no curral em troca de um pagamento.

Mas o castigo para quem ocultasse judeus era a pena de morte e a dona da propriedade comunicou aos meus pais que deveriam partir.
Moshalkova prometeu auxiliar-nos. Em troca do dinheiro que o meu pai lhe havia entregue, obteve dois documentos de identidade polacos:
— Proponho que Zisl e Janchke se disfarcem de mãe e filha de uma família de camponeses polacos e se dirijam a casa da minha irmã, que vive em Varsóvia.
À noite, antes de nos deitarmos no poço existente no curral, o meu pai disse-nos:
— Zisl, Janchke, quero que viajem para Varsóvia.
— E o que te sucederá a ti? — perguntou a minha mãe.
— Quero ir para o bosque e unir-me aos resistentes.
— Herschl, — teimou a minha mãe, — esperamos uns dias e talvez Moshalkova consiga um documento.
O meu pai replicou:
— Não adianta, Zisl. Cada dia que passa, a situação torna-se mais perigosa.
Na manhã seguinte, o meu pai pediu que chamassem Moshalkova para lhe comunicar o que tinham decidido.
Moshalkova trouxe-me roupas de uma menina do campo e entregou os documentos à minha mãe.

Viajámos de comboio até Varsóvia. Não surgiram problemas com a revisão da documentação no comboio e chegámos sem dificuldade a casa da família Skovronek.
Estava convencida também de que meu pai chegara à mata sem problemas. Enganei-me. O meu pai foi capturado e abatido.

Em Varsóvia, dirigimo-nos à rua Zelazna, número 64. A família Skovronek habitava o 6.º andar.
Vivemos na companhia deles durante dois anos, mas nunca pudemos andar livremente pela casa. Nunca íamos à janela. Gatinhávamos por baixo dela.
A minha mãe tinha a cargo a limpeza da casa. Fazia o sabão que a senhora Skovronek ia vender ao mercado, cozinhava e preparava a roupa da família. À noite, auxiliava as crianças nos trabalhos escolares. Eu sabia muitas das respostas, mas falava pouco para não as molestar ou aborrecer.
Pela manhã, depois de saírem, sentia-me como uma rainha. Regava as plantas da casa, lia os livros infantis, gatinhava por baixo da janela, ouvia as vozes das crianças que brincavam no pátio e conversava com a minha mãe. Sussurrando, para que ninguém nos ouvisse.

O apartamento da família Skovronek ficava próximo do gueto de Varsóvia. Era o maior de todos os guetos judaicos. A senhora Skovronek contou à minha mãe que os judeus que ali viviam falavam de fome, de pessoas amontoadas e de doenças.

Uma noite, quando todos dormiam, ouvimos explosões e vimos o céu cheio de labaredas.

Não me contive e aproximei-me da janela.

Junto da janela estava também a minha mãe. Não falámos. Chorámos apenas. Sabíamos que os poucos judeus do gueto lutavam com as suas últimas forças contra o exército alemão. Os soldados combatiam com metralhadoras e tanques contra os judeus, que apenas dispunham de alguns revólveres. Os judeus não tinham qualquer possibilidade de vencer. Uma noite soou a sirene. Os alemães bombardeavam o gueto.

Tinha dez anos quando a guerra terminou. Viajei de comboio com a minha mãe até à nossa aldeia, Biala Rawska. Tudo estava na mesma. Como se nunca tivéssemos ido embora. Na nossa casa vivia agora uma família polaca. Já não era a nossa casa.

Estávamos sós, eu e a minha mãe. Perdemos o meu pai, a minha avó, os meus tios e a minha prima Henia. De entre todos os judeus que ali tinham vivido, estávamos vivos eu, outra criança e trinta e cinco adultos.

No dia seguinte abandonámos a aldeia, para sempre.

A história de Jana Gofrit, adaptação do texto de Naomi Morgenstern