Biblioteca da Escola Básica e Secundária

História

Glossário

Caracala

Foi um dos mais cruéis imperadores romanos. No entanto, o seu nome ficou ligado ao decreto de 212 que concedia a todos os homens livres do império o título e direitos de cidadania. No seu governo foram construídas umas termas notáveis, que ainda hoje podem ser visitadas na cidade de Roma.

Coliseu

O maior dos anfiteatros romanos.

Eremita

Pessoa que evita a convivência social, que vive isolada.

Ignóbil

Vil; desprezível; reles.

Insinuante

Persuasivo; simpático.

Júpiter

Pai dos deuses, segundo a mitologia romana.

Lívido

Extremamente pálido.

Séneca

Filósofo e orador romano.

Toga

Manto largo que era o traje particular dos romanos.

Um mistério na Roma antiga

Moderatus esfregava as costas do seu senhor, sonhando com o dia em que poderia comprar a liberdade. Encontravam-se nos banhos públicos, recentemente concluídos pelo Imperador Caracala. Estavam sentados no compartimento da sauna. A elite romana vinha até este complexo várias vezes por semana, para se lavar, vaporizar e jogar a dinheiro.

Moderatus continuava a tratar de Marcus Livius, enquanto o seu amigo Norteo, também ele escravo, esfregava Achilius, filho de Marcus. Como habitualmente, os homens falavam como se os escravos não tivessem ouvidos.

— Tu foste instruído para fazeres carreira no governo — disse Marcus ao filho, levantando a voz, irritado. — E, por Júpiter, vais fazê-la. És um membro do meu agregado familiar, pertences-me.

Na verdade, Marcus podia decidir sobre a vida e a morte de todos quantos viviam debaixo do seu teto, mas Achilius já não era criança.

— Não há nada de ignóbil em projetar monumentos e edifícios, — disse ele ao pai, em tom de súplica. — O homem que construiu o Coliseu pertencia à classe dos senadores.

— Essa era a sua paixão, não a sua profissão. Aprende-se melhor a construir nos níveis mais baixos do exército.

Moderatus abanou inconscientemente a cabeça, em sinal de concordância. Nenhum cidadão tinha maior consciência da sua posição social do que Marcus Livius. Usava sobre a toga a guarnição própria dos senadores e gastava fortunas para oferecer festas aos seus superiores, para as quais também convidava poetas e atores.

Marcus rejeitou a argumentação do filho e voltou a concentrar a sua atenção no jantar dessa noite. — É quase um golpe termos Eppides, o Grego, como nosso convidado.

— Será um bom entretenimento? — perguntou Achilius, disfarçando um sorriso meio afetado.

Marcus Livius ficou chocado. — Eppides é o maior ator de Roma!

— Desempenha papéis de mulher nas comédias, — respondeu Achilius.

Eppides desempenhava, de facto, papéis femininos. Tinha chegado recentemente de Atenas, pátria histórica das artes, onde era muito apreciado.

— Eppides é uma lenda. Não frequenta os banhos, e quase nunca aceita convites. Vai compartilhar comigo o meu coxim ao jantar. Seria insultá-lo, pedir-lhe que representasse e não o farei.

Foi ao princípio da tarde que os homens de Livius e os seus escravos regressaram a casa. Na cozinha, Sabina, a matriarca, encontrava-se atarefada, supervisionando a refeição. A alimentação do dia-a-dia era, habitualmente, modesta, mas para um jantar de festa não se olhava a despesas.

— Se conseguires que esta refeição seja um sucesso, eu própria compro a tua liberdade. Juro. Desta vez, vou fazê-lo. — Disse a dona da casa a Norteo.

Moderatus sentiu-se incomodado por causa do amigo. Já em dois outros jantares de festa anteriores, uma Sabina desesperada havia prometido a Norteo a sua libertação. Em ambas as ocasiões ele tinha sido bem sucedido, mas Marcus Livius recusara-se a deixá-lo partir, batendo no escravo e na própria mulher, quando eles protestaram.

— Eu sei que essa é a vossa intenção, — disse Norteo com suavidade, enquanto misturava as especiarias com azeite e vinho retirado de uma pequena ânfora de barro. — Mas, enquanto o vosso marido viver, não vai haver liberdade para nenhum de nós.

Moderatus estava à espera que um comentário deste género fizesse com que o escravo fosse esbofeteado, mas Sabina limitou-se a abanar tristemente a cabeça, como se concordasse.

Moderatus saiu da cozinha e atravessava o átrio quando uma sombra se projetou no limiar. Moderatus quase o confundiu com uma mulher, mas quem entrou foi um homem esguio, com um porte real, apesar túnica modesta que envergava. Debaixo do braço, trazia um embrulho. Moderatus soube instintivamente de quem se tratava.

— A casa de Marcus Livius? — perguntou o ator Eppides, o convidado de honra.

Moderatus fez uma vénia. Mas, antes mesmo que conseguisse pronunciar uma palavra de saudação, já o dono da casa se precipitava para fora do seu banco almofadado.

— Caro Eppides, estamos muito honrados — disse, fazendo uma vénia excessivamente pronunciada, atendendo à sua posição.

— Eu vim mais cedo, — disse o ator, com um sorriso insinuante. — Esperava abusar da vossa hospitalidade. Ouvi dizer que a vossa casa é uma das poucas que têm um banho privativo.

Moderatus deduziu que o embrulho devia conter as roupas que o ator iria vestir para jantar e uma esponja para se lavar no banho.

— Seria para mim uma honra que usásseis o meu banho, — afirmou Marcus Livius. — Fica nos meus aposentos privados.

— Nunca gostei de me banhar em público, — explicou Eppides, enquanto saíam juntos. — Fora do palco, sou uma espécie de eremita.

Marcus Livius reuniu os criados para prepararem o quarto. Foram colocados biombos, para haver total privacidade. A água foi aquecida e prepararam-se os mais finos óleos. Quase no fim do banho, o próprio Marcus forçou a aproximação ao ator, passando por detrás do biombo para lhe levar toalhas limpas e quentes, mas, quando saiu do aposento, o seu rosto estava lívido.

Os restantes convidados chegaram a meio da tarde, à hora normal. Para tirar vantagem do bom tempo, Sabina tinha transformado o peristilo em sala de jantar, alinhando os coxins para o jantar em volta de mesinhas baixas, sobre as quais seria colocada a comida. Ao centro, no chão, tinha sido montado um palco de madeira.

Moderatus e os restantes escravos serviram a refeição. Norteo enchia as taças nas quais os comensais lavavam as mãos engorduradas. Marcus Livius partilhava o seu coxim e a sua taça com o famoso ator. Quando o dia, suavemente, deu lugar à noite, acenderam as tochas e a festa prolongou-se. Um general da segunda legião elogiou entusiasticamente os pratos elaborados e nenhum dos senadores adormeceu durante a declamação do poema épico que homenageava o último imperador.

Como sempre, Sabina ocupava o coxim mais próximo da cozinha, a posição perfeita para uma anfitriã. Dois escravos transportavam para a sala uma travessa com peitos de pavão, que ela inspecionou cuidadosamente. Achilius, o único filho do casal, partilhava um coxim com dois dos seus amigos.

Moderatus entregou um jarro a Achilius e reparou na pequeníssima quantidade de água que o jovem adicionou ao seu vinho, antes de passar o jarro ao pai, no coxim contíguo.

Marcus Livius diluiu o vinho da sua taça, de acordo com a moda instituída. No entanto, mesmo um vinho fraco pode embriagar. A confeção dos pratos com mel, combinada com o sucesso da sua festa tinham tornado Marcus Livius muito expansivo: — Temos de exigir ao incomparável Eppides que nos honre com uma amostra do seu talento.

Todos os comensais se viraram nos respetivos coxins, expectantes. Pedir a um convidado que protagonizasse uma representação era algo de inédito.

Eppides hesitou. Uns minutos depois, sorriu de forma graciosa e pôs-se de pé. A sua subida ao palco foi acolhida com aplausos. O jardim mergulhou num silêncio profundo, apenas quebrado pela respiração difícil do anfitrião. Este som isolado foi-se tornando cada vez mais intenso, até que Marcus Livius se levantou aos tropeções, derrubando a taça de lavar as mãos que estava à sua frente.

Todos em Roma conheciam os efeitos do veneno. Durante centenas de anos, tinha sido o meio preferido pelo império para eliminar familiares e inimigos, pois, para atuar, bastava entrar em contacto com a pele. A cicuta disfarçada em mel havia morto o famoso Séneca. No entanto, era invulgar ser envenenado num local em que a comida era partilhada por todos.

Um general e um senador correram para junto do homem rico, fizeram-no deslizar para o chão e tentaram colocá-lo numa posição confortável. Se Marcus Livius conhecia a identidade do seu envenenador, não usou os seus últimos momentos de vida para a revelar. Sabina e Achilius estavam de pé, silenciosos, enquanto o cão predileto do morto lambia calmamente a poça de água entornada da taça de lavagem das mãos.

Só horas mais tarde, depois de os convidados se terem retirado apressadamente para as suas casas, para espalhar a escandalosa notícia, é que a ordem começou a ser restaurada. Sabina mandou colocar o corpo na sala de jantar e vestir a casa de luto. Moderatus juntou-se aos outros escravos para limparem o jardim das traseiras e encontrou o cão favorito de Marcus Livius enrolado num canto, também ele envenenado. Achilius chamou-o e puxou-o para o lado.

— Tenho estado a observar-te — disse, num tom sombrio. — És um homem inteligente e vês coisas. Diz-me, Moderatus, até que ponto desejas a liberdade?

Numa questão de minutos, o negócio estava fechado. Moderatus tentaria descobrir a verdade. Se conseguisse provar ao mundo quem era o responsável pela morte de Marcus Livius, Achilius libertá-lo-ia.

1. Se só Marcus Livius e o cão foram envenenados, onde foi colocado o veneno?

2. Quem matou Marcus Livius?

Adaptado de: CONRAD, Hy - Crimes na história. Replicação, 2007