Biblioteca da Escola Básica e Secundária

Física e Química

O que vamos ler

Um pouco mais de azul, de Hubert Reeves

Este livro conta-nos a história do universo.

«Uma montanha que pariu um rato... Na linguagem popular esta expressão tem sentido pejorativo. Descreve uma decepção: fez-se grande alarido e muitas ondas por uma ninharia. Se se tomar em consideração a matéria em jogo, pode-se compreender esta fórmula. Mas se nos colocarmos de preferência no plano da riqueza da organização, a situação inverte-se. Apesar dos seus milhões de toneladas de rocha, uma montanha nada sabe fazer. O rato, pelo contrário, com algumas dezenas de gramas de matéria, é uma maravilha do universo. Vive, corre, come e reproduz-se. Se um dia uma montanha parisse um rato, poderíamos pensar estar perante o mais extraordinário dos milagres...

A história do universo é, grosso modo, a história da montanha que pariu um rato. E esta história, capítulo por capítulo, emerge das diferentes aproximações científicas da realidade: física, química, biologia e astronomia.»

Disponível na biblioteca escolar.

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O universo do reverendo Evans

Se colocarmos um telescópio no terraço da nossa casa e observarmos o céu noturno, podemos fazer algo de extraordinário: perscrutar o passado.

O que vemos já passou à história, e há muito – veremos as estrelas, não como elas são agora, mas como eram quando a luz as deixou. A verdade é que a Estrela Polar pode muito bem ter-se extinguido há um mês, ou em 1854, ou em qualquer outra data desde o século XIV, e nós simplesmente ainda não sabermos. O máximo que podemos dizer é que ainda estava a arder há 680 anos. As estrelas morrem a toda a hora.

Quando os céus estão limpos e a Lua não brilha com intensidade, o reverendo Robert Evans, um homem sossegado e bem disposto, coloca um velho telescópio no terraço traseiro da sua casa nas Blue Mountains, na Austrália, e deteta esses momentos de despedida celestial.

Durante o dia, Evans é um simpático padre semi-reformado, que faz alguns trabalhos por conta própria, mas à noite é, à sua modesta maneira, o titã dos céus. Anda à procura de supernovas.

As supernovas surgem quando uma estrela gigante, muito maior do que o nosso Sol, cai e explode de forma espetacular, libertando num instante a energia de cem biliões de sóis, que, durante algum tempo, ardem com mais intensidade e luz do que todas as estrelas da galáxia. «É como um trilião de bombas de hidrogénio a explodir ao mesmo tempo», diz Evans. Se uma explosão de supernovas acontecesse num raio de 500 anos-luz de nós, seríamos destruídos. Mas o universo é muito vasto e as supernovas estão demasiado afastadas para nos poderem causar qualquer dano. Na realidade, a maior parte está a distâncias tão inimagináveis que a sua luz só nos chega sob a forma de uma tenuíssima cintilação. Durante o mês em que se conseguem ver, a única coisa que as distingue das outras estrelas é o facto de antes não haver nada naquela porção de espaço que estão a ocupar. E é dessas raríssimas alfinetadas brilhantes que o reverendo Evans anda à procura na superpovoada cúpula do céu noturno.

O dom de Evans é tão excecional que Oliver Sacks lhe dedica uma passagem de um capítulo no livro Um antropólogo em Marte.

«Parece que tenho uma queda especial para memorizar campos de estrelas», afirma Evans. «Não tenho grande jeito para outras coisas. Não consigo lembrar-me dos nomes das pessoas...»

O termo supernova foi proposto em 1930 por Fritz Zwicky, um astrofísico excêntrico, nascido na Bulgária, que, em 1920, foi para o Instituto de Tecnologia da Califórnia, onde se tornou conhecido pela sua personalidade contundente. Fã incondicional do exercício físico, era frequente atirar-se para o chão da sala de jantar do instituto e fazer flexões só com uma mão. Era tão declaradamente agressivo que o seu colaborador mais próximo, um homem de temperamento calmo chamado Walter Baade, se recusava a ficar sozinho com ele.

Mas Zwicky também era capaz de análises simplesmente brilhantes. No início da década de 1930, começou a interessar-se por algo que há muito preocupava os astrónomos: o aparecimento inexplicável e ocasional de pontos de luz no céu, por outras palavras, de novas estrelas. E teve a ideia improvável de que talvez o neutrão – a partícula subatómica recentemente descoberta em Inglaterra por James Chadwick – estivesse no centro da questão, mas só 34 anos mais tarde se confirmaria a existência de estrelas de neutrões.

Zwicky foi também o primeiro a reconhecer que não havia no universo massa visível que chegasse para manter as galáxias juntas e que deveria haver outra influência gravitacional – aquilo a que agora chamamos matéria negra. Infelizmente, Zwicky era olhado com tal desdém pela maioria dos seus colegas que não conseguiu fazer valer as suas ideias. Quando, cinco anos mais tarde, o grande Robert Oppenheimer dissertou sobre as estrelas de neutrões num documento histórico, não fez qualquer referência ao trabalho desenvolvido por Zwicky, num gabinete muito próximo do seu. As deduções de Zwicky sobre matéria negra só viriam a ser seriamente consideradas quase quatro décadas mais tarde. Calcula-se que, durante esse período, terá feito muitas flexões.

BRYSON, Bill - Breve história de quase tudo. Quetzal, 2004.