Biblioteca da Escola Básica e Secundária

Economia

O que vamos ler

Freakonomics: o estranho mundo da economia, de Stephen J. Dubner e Steven D. Levitt

Das conversas entre dois americanos, um jornalista e um economista, nasceu o livro Freakonomics, onde os autores exploram «o lado oculto de todas as coisas». Factos e números são apresentados de uma forma simples e muito invulgar, afastando as respostas geralmente mais convencionais. Freakonomics redefine a perspetiva de interpretação da realidade económica estimulando os impulsos emocionais dos leitores. Um livro com um conceito inovador, que introduz uma verdadeira revolução na forma como a economia se expressa na atualidade. «Politicamente incorreto… no melhor sentido».

Freakonomics: o estranho mundo da economia

Resultados viciados

Os alunos sempre tiveram incentivos para fazer batota desde que existem testes e exames. Mas, nos Estados Unidos, os chamados testes de elevada exigência mudaram tão radicalmente os incentivos para os professores que agora também eles têm razões para fazer batota.

Os testes são parte integrante de uma lei designada por «No Children Left Behind» em que as escolas não se limitam a avaliar os alunos com o objetivo de medir o seu progresso; elas são também, cada vez mais, responsabilizadas pelos resultados obtidos, podendo ser recompensadas ou penalizadas. Se a escola, no seu conjunto, tem maus resultados, parte do financiamento pode ser retido. No entanto, o sistema apresenta também alguns incentivos positivos para os professores. Se os seus alunos obtêm bons resultados nos testes, o professor pode receber um louvor, uma gratificação ou ser promovido.

E se um professor decidisse analisar esta paisagem e considerasse a hipótese de inflacionar de alguma forma os resultados dos alunos, ainda podia encontrar um último incentivo: o professor que vicia os resultados raramente é investigado, dificilmente é descoberto e quase nunca é castigado.

Como é que um professor pode aldrabar os resultados? Há um certo número de possibilidades, desde as mais rudimentares às mais sofisticadas. Recentemente, um aluno do quinto ano, quando voltou para casa, contou à mãe, todo satisfeito, que o seu professor era tão bom que tinha escrito as respostas do exame no quadro. O professor foi despedido.

Uma vez que todos estes testes são de respostas de escolha múltipla, sem penalização pelas respostas erradas, se um professor quisesse realmente falsear os resultados – de modo a valorizar-se a si próprio – poderia recolher as folhas de resposta dos seus alunos e, durante uma hora ou duas, antes de as entregar para serem lidas por um scanner digital, apagar as respostas erradas e substituí-las por respostas certas. Poderia escolher uma série de oito ou dez perguntas sucessivas e preencher as respostas corretas a, digamos, metade ou dois terços dos alunos.

Se a economia é uma ciência principalmente relacionada com os problemas de incentivos, é também uma ciência com ferramentas estatísticas destinadas a medir como é que as pessoas respondem a esses incentivos. Tudo o que é necessário são alguns dados.

Neste caso, o sistema de Ensino Público de Chicago correspondeu às necessidades, disponibilizando um banco de dados das respostas dos testes dadas por todos os alunos abrangidos pelo CPS durante um período de sete anos.

Obtidos os dados, era necessário construir um algoritmo que pudesse extrair algumas conclusões. O que é que poderia caracterizar uma turma de um professor que aldraba os resultados?

Primeiro devem procurar-se padrões de resposta fora do comum numa determinada sala de aula: por exemplo, blocos de respostas idênticas entre as perguntas mais difíceis. Se dez maus alunos responderem bem às últimas cinco perguntas no exame, as mais difíceis, vale a pena olhar para o que se passou. Outro sinal de alarme pode ser um padrão estranho nas respostas ao teste de um aluno – como, por exemplo, ter respondido bem às perguntas difíceis e ter respondido erradamente às perguntas fáceis. Além disso, o algoritmo procurava uma sala de aula cheia de alunos que tivessem obtido resultados de longe melhores do que os seus resultados anteriores fariam esperar e que tiveram resultados significativamente mais baixos no ano seguinte.

Conclusão: uma análise de todos os dados de Chicago acabou por revelar claramente a existência de professores a viciar os resultados dos exames em mais de duzentas salas de aula por ano, ou seja, cerca de cinco por cento do total. Trata-se de uma estimativa conservadora, já que o algoritmo apenas era capaz de identificar a forma mais notória de fazer batota – aquela em que os professores alteraram de uma forma sistemática as respostas dos alunos – e não as muitas formas mais subtis que um professor pode utilizar para viciar os resultados.

O algoritmo  também permitiu identificar os melhores professores do sistema escolar. O impacto de um bom professor era quase tão visível como o de um falsificador. Em vez de acertar nas respostas de uma forma aleatória, os seus alunos mostravam uma verdadeira melhoria nos tipos de perguntas que anteriormente tinham errado, o que constituía uma indicação de que tinham mesmo aprendido. E os alunos de um bom professor levavam consigo essa melhoria para o ano seguinte.

Dubner, Stephen J.; Levitt, Steven D. - Freakonomics:
o estranho mundo da economia.
Presença, 2006.