Biblioteca da Escola Básica e Secundária

Economia

Glossário

Capital humano

O conceito de capital humano consiste em atribuir um valor ao capital incorporado nos seres humanos, fruto da sua experiência, educação, formação e competências. Este capital seria um factor fundamental do desenvolvimento económico diferenciado entre países.

Cerne

Âmago, a parte mais essencial.

Estenógrafo

Indivíduo capaz de acompanhar na escrita a rapidez da fala, empregando a estenografia.

Harvard

A Universidade Harvard é uma das instituições educacionais mais prestigiadas do mundo e a mais antiga instituição de ensino superior dos Estados Unidos.

Jack, o Estripador

Pseudónimo dado a um assassino em série não-identificado que agiu no distrito de Whitechapel, em Londres, no final do século XIX.

Utopia

Sistema ou plano que parece irrealizável.

A cidade como solução

Na época de Jack, o Estripador, vivia em Londres um estenógrafo de modos suaves chamado Ebenezer Howard, que exerceu uma influência duradoura na forma como encaramos as cidades.

Ebenezer era calvo, tinha um bigode vistoso, óculos de aros finos e o ar absorto de um investigador. O seu trabalho, centrado na transcrição de discursos, não o satisfazia. Aquilo de que a sua família precisava, escreveu ele à mulher, em 1885, era uma casa com «um jardim bonito, talvez com um campo de ténis relvado». Alguns anos mais tarde, Ebenezer concebeu um plano para esvaziar Londres. Na década de 1880, a cidade crescia de forma explosiva. Os bairros eram miseráveis e imundos. Cada quarto alugado abrigava uma família inteira, por vezes duas.

No século seguinte, o planeamento urbano nasceu da perceção horrorizada das cidades do século XIX. Estranhamente, começou com Ebenezer Howard. Numa edição de autor de 1898, delineou a sua própria visão de como a humanidade deveria viver e esta era tão convincente que, meio século mais tarde, se afirmou que ele tinha lançado as bases para um novo ciclo na civilização urbana.

Era preciso travar a maré da urbanização atraindo as pessoas para novas «cidades-jardim» autossuficientes, defendeu Ebenezer, uma espécie de união entre cidade e campo. Viveriam em casas simpáticas com jardins no centro, iriam a pé para o trabalho, e seriam alimentados por explorações agrícolas desenvolvidas numa cintura agrícola externa, a qual, por sua vez, impediria igualmente a cidade de se alargar à zona rural. Em 1907, Ebenezer Howard formulou a previsão arrojada de que as suas novas utopias em breve se espalhariam por todo o mundo.

Embora tivesse razão quanto ao desejo das pessoas de terem mais espaço para viver, estava errado a respeito do futuro das cidades: foi a maré de urbanização que acabou por se espalhar por todo o mundo. Nos países desenvolvidos e na América Latina, quase atingiu um pico: mais de 70% da população reside em áreas urbanas. Em grande parte da Ásia e de África, a população continua a afluir às cidades, que aumentaram de tamanho e cresceram em número. No século XIX, Londres era a única cidade com mais de cinco milhões de habitantes; atualmente, há 54, na sua maioria na Ásia.

A urbanização, porém, também significa boas notícias. A opinião dos peritos alterou-se profundamente nas duas últimas décadas. Com a população da Terra a aproximar-se dos nove mil ou dos dez mil milhões de habitantes, as cidades densamente povoadas perfilam-se como um remédio e a melhor esperança para arrancar as pessoas da pobreza sem destruir o planeta.

Edward Glaeser, economista de Harvard, afirmou que não existem países urbanizados pobres, assim como não existem países rurais ricos. Na sua opinião, os bairros de lata e as favelas do Rio são exemplos de vitalidade urbana. A gente pobre acorre às cidades por ser ali que está o dinheiro, e as cidades produzem mais, porque a «inexistência de espaço entre os habitantes» reduz o custo de transporte dos bens, pessoas e ideias. O cerne da cidade contemporânea é a valorização do conhecimento em detrimento do espaço. Nas cidades onde as pessoas têm um nível de formação mais elevado, até aquelas com menos habilitações ganham ordenados mais altos, uma prova dos «efeitos secundários do capital humano».

Compreende-se facilmente por que razão os economistas aderem entusiasticamente às cidades, como motores de prosperidade. Foi mais demorado conseguir a adesão dos ambientalistas. Ao aumentarem o rendimento, as cidades fazem crescer igualmente o consumo e a poluição, mas, de um ponto de vista ecológico, alguns consideram que uma ética de retorno à terra seria catastrófica. As cidades permitem que metade da humanidade viva em cerca de 4% da terra arável, deixando mais espaço para o campo aberto.

Em termos de despesa per capita, os moradores das cidades deixam uma marca mais leve noutros domínios. As suas estradas, esgotos e linhas de eletricidade são mais curtos e, por isso, consomem menos recursos. Os seus apartamentos consomem menos energia para aquecer, arrefecer e iluminar. Em cidades como Nova Iorque, o consumo energético per capita e as emissões de carbono são muito inferiores à média dos EUA.

Nos países em vias de desenvolvimento, as cidades são ainda mais densas e consomem menos recursos. Mas isso deve-se sobretudo ao facto de as pessoas pobres consumirem pouco. Os moradores de Dharavi, na Índia, não dispõem de abastecimento seguro de água, casas de banho ou recolha de lixo. O mesmo sucede a talvez mil milhões de outros residentes em áreas urbanas de países em vias de desenvolvimento. E vão ser essas cidades, segundo projeções da ONU, que absorverão grande parte do crescimento demográfico mundial até 2050, ou seja, mais de dois mil milhões de habitantes. A forma como os seus governos reagirem afetar-nos-á a todos.

Segundo um inquérito da ONU, 72% dos países em vias de desenvolvimento puseram em prática políticas públicas destinadas a travar o êxodo migratório para as suas cidades. No entanto, é um erro considerar a urbanização em si como um mal e não como uma componente inevitável do desenvolvimento. Na Coreia do Sul, por exemplo, não é possível compreender a urbanização se a isolarmos do desenvolvimento económico. A cidade viabilizou a ascensão económica que, por sua vez, financiou as infraestruturas que ajudaram a cidade a absorver o crescimento demográfico do país.

KUNZIG, Robert - A cidade como solução. National Geographic. N.º 130 (2012), p. 57-79.