Biblioteca da Escola Básica e Secundária, Valença

Texto informativo

Glossário

Calgary

Terceira cidade mais populosa do Canadá.

Downhill

Atividade desportiva que consiste em descer encostas abruptas a grande velocidade.

Incauto

Que não tem cuidado; imprudente; desprevenido.

Périplo

Viagem ou visita efetuada em torno de determinado espaço central.

Proeminente

Saliente.

Resiliência

Capacidade de defesa e recuperação perante fatores ou condições adversos.

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Eddie, a águia, conseguiu o que queria. Competiu e não caiu

O esquiador britânico ganhou fama no desporto por ser um perdedor espetacular

Diziam que ele tinha medo de alturas. Que era míope. Que nunca tinha esquiado na vida e que não tinha jeito para o desporto. Isto se dizia de Michael Edwards, um dos mais espetaculares perdedores do desporto moderno. Nem tudo o que se dizia era verdade. Edwards era míope, mas não tinha medo de alturas. Para se ser saltador no esqui, não se pode ter medo de alturas. E Michael Edwards era um saltador. Era mau. Mas era um deles.

Chamavam-lhe Eddie “The Eagle” e, em 1988, foi ele a “estrela” dos saltos nos Jogos Olímpicos de Inverno, realizados em Calgary. Não porque tenha sido primeiro, mas porque foi último duas vezes. Alguns viram-no como uma vergonha para o desporto que devia ser ignorada, outros olharam para ele como um exemplo perfeito do que deve ser o espírito olímpico. Eddie, “a águia”, não estava lá para ganhar, estava lá para competir e não cair.

Eddie, de 24 anos, trabalhava como estucador em Cheltenham, uma cidade no sudoeste de Inglaterra. Queria ser atleta olímpico e até era um esquiador amador com alguns méritos, na prova de downhill. Em 1984, falhou por pouco um lugar na equipa britânica que iria estar nos Jogos de Lake Placid, mas não desistiu do sonho olímpico. Só que o downhill era uma disciplina demasiado cara para ele, que não tinha apoio oficial ou patrocínios. Trocou a velocidade pelos saltos porque era mais económico, mas, também, porque sabia que não ia ter concorrência no apuramento. Não havia mais nenhum britânico que fizesse aquilo.

Para se qualificar para os Jogos, Eddie tinha de fazer um salto de 70 metros numa prova da Taça do Mundo. Aqui não estava dependente de nenhum processo de seleção, mas havia um problema. Com toda a sua competência no esqui alpino, nunca tinha feito saltos na vida. Começou pelos saltos a 15 metros e quando passou para os 40 caiu.

Eddie não tinha treinador, nem dinheiro para andar de avião. Só resiliência e engenho. Conduziu a carrinha da mãe pela Europa para participar em provas da Taça do Mundo, teve vários empregos de ocasião — foi babysitter, cozinheiro e trabalhou numa lavandaria, por exemplo —, andou a recolher restos em caixotes do lixo para comer e contava com a boa-vontade e outras equipas para competir. Os esquis eram da equipa austríaca, o capacete foi cedido pelos italianos e tinha de usar seis pares de meias para poder usar umas botas em segunda mão bem maiores que os seus pés.

Neste périplo em busca do sonho, também ficou alojado em sítios improváveis. “Houve uma vez que me convidaram para treinar com a equipa finlandesa em Kuopio, mas não tinha sítio para ficar. Um dos treinadores da equipa trabalhava no hospício local como empreiteiro e eles deixaram-me ficar lá um mês, ao custo de uma libra por noite. Conheci alguns pacientes lá, geralmente ao pequeno-almoço. Eles só falavam finlandês e eu nunca sabia se eles estavam a falar sozinhos ou comigo”, contava Edwards ao The Independent, em 2008.

Edwards lá conseguiu fazer uma prova que o colocou perto dos mínimos e a federação britânica aceitou levá-lo aos Jogos. Eddie não sabia, mas já se tinha tornado numa celebridade desportiva internacional. Quando aterrou em Calgary, tinha uma multidão à sua espera, mas para chegar até aos fãs sofreu várias peripécias. A sua mala ficou presa no tapete de recolha das bagagens, rebentou e Eddie teve de andar em cima do tapete a recolher a roupa. Depois, tinha de sair do aeroporto, mas até isso foi complicado. As portas automáticas estavam desligadas, era de noite e o incauto britânico foi contra o vidro e partiu os esquis.

Os jornalistas que estavam em Calgary queriam contar a sua história. Cada conferência de imprensa da “águia” era um evento concorrido e nenhum dos outros atletas britânicos merecia tanta atenção mediática como Edwards, que parecia completamente deslocado, com o seu bigode, óculos com lentes de fundo de garrafa e queixo proeminente, mas de sorriso aberto e simpatia natural.

Na competição, uma coisa correu bem a Edwards. Não caiu em nenhum dos quatro saltos que fez. Mas foi último nas duas modalidades. Em pista normal, o seu resultado combinado dos dois saltos foi 69,2 pontos; o do campeão olímpico, o finlandês Matti Nykanen, foi de 229,1 pontos.

Por ter sido um perdedor, Edwards deixou de ter problemas de dinheiro. Pagaram-lhe fortunas para fazer aparições públicas, escreveu livros, apareceu em programas de televisão e até cantou em finlandês, apesar de não falar uma palavra da língua. Quatro anos depois dos Jogos, declarou bancarrota e teve de voltar a trabalhar na construção civil, em Cheltenham. Mas a sua celebridade desportiva continuou a render ao entrar no circuito das palestras motivacionais e ao vender os direitos cinematográficos da sua vida. Aproveitou também para fazer duas cirurgias, uma ao maxilar inferior e outra aos olhos. Adeus queixo proeminente e adeus miopia.

Tal como Eddie, houve muitos outros perdedores espetaculares com nome de animal. Houve Eric “a enguia” Moussambani, o nadador da Guiné Equatorial que quase se afogou nos Jogos Olímpicos de Sydney, em 2000, ou Trevor “a tartaruga” Misipeka, o volumoso samoano que esteve nos Mundiais de atletismo de 2001, em Edmonton, para o lançamento do peso e acabou a correr os 100m. Eddie ficou como “a águia” porque voava durante breves segundos depois de se lançar da pista de saltos, mas é o próprio a reconhecer que talvez não fosse a ave mais adequada para o descrever. “Gostava de dizer que voava como uma águia, mas acho que estava mais perto de ser uma avestruz.”

Fonte: VAZA, Marco - Eddie, a águia, conseguiu o que queria. Competiu e não caiu. Público [em linha]. Disponível em: www.publico.pt/desporto