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A Páginas Tantas

Podemos tornar-nos melhor a esquecer?

Durante muito tempo, o esquecimento foi visto como um processo passivo de deterioração e como o inimigo da aprendizagem. No entanto, descobriu-se que esquecer é uma capacidade dinâmica, essencial para recuperar memórias, manter a estabilidade mental e preservar o sentido de identidade.

Isto deve-se ao facto de a memória ser um processo dinâmico. A nível bioquímico, as recordações não são retiradas de uma prateleira, como vídeos armazenados, mas construídas — ou reconstruídas — pelo cérebro.

«Quando recordamos alguma coisa, o próprio ato de recordar ativa um processo bioquímico que pode consolidar e reorganizar a memória armazenada», explicou Andre Fenton, neurocientista da Universidade de Nova Iorque.

A longo prazo, este processo pode melhorar a precisão das recordações. No entanto, a ativação de uma memória também a torna temporariamente frágil e vulnerável a alterações. É aqui que entra o esquecimento intencional. Trata-se menos de apagar do que de editar: rever gradualmente a memória, mudar o foco da atenção e, eventualmente, atenuar o acontecimento central que lhe está associado.

Esquecer intencionalmente é recordar de forma diferente, de propósito. É importante salientar que, para os cientistas e terapeutas, o esquecimento intencional pode também ser uma capacidade que se exercita e fortalece deliberadamente.

Um esforço concentrado para esquecer uma recordação indesejada não ajuda a atenuá-la, tal como não ajuda desviar mentalmente o olhar. Pelo contrário, parece existir um ponto de equilíbrio — nem pouca atenção mental, nem atenção excessiva — que permite que uma memória venha à mente e depois se desvaneça, pelo menos parcialmente, por si própria. Para esquecer, é preciso recordar um pouco.

A ideia de que as memórias têm de ser reforçadas antes de poderem ser enfraquecidas é surpreendente, pois contraria a forma como habitualmente pensamos que a memória funciona.

O modelo linear do esquecimento defende que menos atenção mental significa menos recordação. Este modelo parece aplicar-se a alguns tipos de memória; ignorar deliberadamente uma recordação é uma componente central de uma estratégia de esquecimento conhecida como supressão.

Outras estratégias não seguem um percurso estritamente linear, pois exigem algum envolvimento com a memória. Uma delas é a substituição: associar deliberadamente uma recordação indesejada a outros pensamentos, que ajudam a alterar o seu conteúdo quando ela é recuperada mais tarde. Por exemplo, uma recordação humilhante pode perder intensidade se a atenção se centrar menos no sentimento de vergonha e mais nos amigos que ofereceram apoio posteriormente.

Os cientistas ainda não determinaram quais as estratégias mais adequadas a cada tipo de recordação indesejada. No entanto, uma compreensão mais clara deste processo seria muito valiosa para os terapeutas que trabalham com pessoas afetadas por recordações traumáticas, de vergonha ou de abandono que comprometem o seu bem-estar. Estas recordações não se desvanecem: permanecem, quer sob a forma de lembranças vívidas, quer como fontes de medo e desespero que atuam a nível inconsciente ou parcialmente consciente.

O esquecimento também tem uma função protetora.

Carey, B. (2019, March 22). Can we get better at forgetting? The New York Times.

“It is not that I’m so smart. But I stay with the questions much longer.” – Albert Einstein