Agrupamento de Escolas de Muralhas do Minho, Valença

Gostar de ler aprende-se?

A relação entre o prazer de ler e a competência leitora é mais complexa do que parece. David Didau, no artigo O mito de ensinar as crianças a “ler por prazer”, questiona a ideia de que o gosto pela leitura conduz necessariamente a melhores resultados escolares. Segundo o autor, a relação poderá funcionar sobretudo no sentido inverso: as crianças tendem a gostar mais de ler quando já dominam a leitura.

Os leitores fluentes compreendem os textos com menos esforço e conseguem concentrar-se nas ideias, na linguagem e na narrativa. A competência leitora não garante, por si só, o gosto pelos livros, mas torna a leitura mais acessível e favorece o prazer de ler. Por sua vez, a leitura frequente contribui para desenvolver o vocabulário, ampliar os conhecimentos e melhorar a compreensão.

A qualidade das leituras também importa. Contar livros, páginas ou minutos de leitura não permite avaliar, por si só, os progressos alcançados. O contacto com textos linguisticamente ricos e intelectualmente exigentes ajuda a desenvolver a compreensão e a aprofundar conhecimentos. Ler apenas obras familiares e simples pode limitar novas aprendizagens. Didau questiona, por isso, as estratégias que procuram tornar os livros tão atrativos como as plataformas digitais, sobretudo quando estas favorecem conteúdos rápidos e fragmentados, pouco propícios à concentração prolongada.

A liberdade de escolha deve acompanhar o desenvolvimento das competências. Respeitar os interesses dos alunos é essencial para os aproximar da leitura. No entanto, aqueles que sentem maiores dificuldades tendem a preferir textos mais simples e familiares, enquanto os leitores mais competentes conseguem aventurar-se por obras mais exigentes. Sem orientação, a escolha autónoma poderá acentuar as diferenças entre leitores. Ajudar os alunos a descobrir novos autores, temas e géneros permite alargar os seus horizontes sem desvalorizar as preferências individuais.

A biblioteca escolar desempenha um papel importante neste processo: disponibiliza livros variados, orienta escolhas e cria oportunidades para partilhar experiências e recomendações. Contudo, promover a leitura exige mais do que organizar atividades lúdicas, concursos ou iniciativas de incentivo. É necessário ensinar os alunos a ler com fluência e compreensão, proporcionar-lhes contacto com textos diversificados e ajudá-los a enfrentar desafios progressivamente mais exigentes.

Ensinar a ler e incentivar o prazer da leitura não são objetivos incompatíveis. A escola deve articular o desenvolvimento das competências leitoras com oportunidades para descobrir livros interessantes e construir hábitos de leitura. O prazer não pode ser imposto nem substitui a aprendizagem; pode, porém, crescer à medida que os alunos ganham confiança, compreendem melhor o que leem e descobrem novas possibilidades nos livros.

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“Research suggests that it is the more accomplished readers who choose to read more.” – UK Department for Education