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Jornal Escolar AE Muralhas do Minho | 2025-2026
Sherlock Holmes: o detetive e o seu sótão mental
Rodrigo Mourão, 9.º D | 14-05-2025
Um estudo em vermelho, de Sir Arthur Conan Doyle, é a primeira história protagonizada por Sherlock Holmes. As suas investigações são narradas pelo Dr. Watson, que descreve o engenho do detetive como “dedução elevada à categoria de ciência exata”. Esta parte chamou-me a atenção.
Ouvindo-me citar Thomas Carlyle, perguntou-me com a maior ingenuidade quem era e o que tinha feito. No entanto, a minha surpresa atingiu o máximo, quando verifiquei que ignorava a teoria de Copérnico e a composição do sistema solar. Ver uma pessoa civilizada, em pleno século XIX, desconhecer que a Terra girava em torno do Sol parecia-me um facto tão extraordinário que eu mal podia acreditá-lo.
— Você ficou atónito — comentou sorrindo, ante a minha expressão de surpresa. — Pois agora que sei disso, tratarei de esquecê-lo o mais depressa possível.
— Esquecê-lo?!
— Evidentemente — explicou-me: — Considero o cérebro humano como sendo inicialmente um sótão vazio, que elevemos mobilar conforme desejamos. Um tolo atulha-o com quanto traste vai encontrando à mão, de maneira que os conhecimentos de alguma utilidade para ele ficam soterrados ou, na melhor das hipóteses, tão ocultos, entre as demais coisas, que lhe é difícil alcançá-los. Um trabalhador especializado, pelo contrário, é muito cuidadoso com o que leva para o sótão da sua cabeça. Não quererá mais nada além dos instrumentos que possam auxiliá-lo no seu trabalho: destes é que possui uma larga provisão, e todos na mais perfeita ordem. É um erro pensar que o dito quartinho tem paredes elásticas e pode ser distendido à vontade. Segundo as suas dimensões, há sempre um momento em que para cada nova entrada de um conhecimento as pessoas esquecem qualquer coisa que sabiam antes. Consequentemente é da maior importância não ter factos inúteis a ocupar o espaço dos úteis.
— Mas o sistema solar! — protestei.
— Que importância tem para mim? — interrompeu ele com impaciência. — Você diz que giramos em torno do Sol. Se girássemos em volta da, Lua, isso não faria a menor diferença para o meu trabalho.
Estive a ponto de perguntar-lhe qual era esse trabalho, mas qualquer coisa nas suas maneiras me indicava que a pergunta não seria bem recebida. Refleti, no entanto, sobre a nossa breve conversa, e esforcei-me por fazer algumas deduções.
Transcrito de: Um estudo em vermelho, Arthur Conan Doyle. Livros do Brasil, 1985.
“The world is full of obvious things which nobody by any chance ever observes.” – The Hound of the Baskervilles,1902