Jornal Escolar AE Muralhas do Minho | 2023-2024
Crónicas Soltas de uma Guerra em África
Livros | 26-01-2024
Em 2006, a biblioteca da Escola Secundária de Valença publicou o livro Crónicas Soltas de uma Guerra em África, da autoria do professor José Leal.
O livro aborda, numa perspetiva única e pessoal, episódios da guerra colonial que teve lugar nas antigas colónias portuguesas de Angola, Guiné e Moçambique, entre 1961 e 1974, opondo as tropas portuguesas aos movimentos de libertação daquelas províncias, hoje países independentes. Estas crónicas constituem um testemunho verídico de um capítulo da história portuguesa.
A cegueira do Manuel Papelão
O Manuel Papelão era um jovem solteirão, perto dos 60 de idade e uma das figuras mais carismáticas do AB7.
Mecânico de helicópteros, tinha um gosto especial pelas comezainas, abusava da bebida como quase todos os elementos da Base, um subterfúgio arranjado para esquecer as mágoas, esquecer a saudade da família e dos amigos e tirar do pensamento as dificuldades que a qualquer momento podiam surgir.
O Manuel Papelão, que era Manuel de nome e Papelão de alcunha, era um tipo simpático quando estava com os copos. Quando o nível cervejeiro e vínico ainda não tinha atingido o ponto certo, era um gajo rezingão, rabugento, difícil de aturar, que causava problemas no convívio diário, problemas que não atingiam maiores proporções, porque o pessoal tinha em atenção a sua idade e desculpava-lhe muitas coisas.
Segundo aqueles que o conheciam há mais tempo, a alcunha derivava do facto de um dia ter ido para um baile de Carnaval em que havia um concurso de máscaras e ele ter ganho o primeiro prémio sem estar mascarado. É que naquele tempo, longe ainda das modernas tecnologias, as máscaras eram feitas de papelão. Esta é a história contada por alguns dos seus camaradas mais antigos e que o nosso Manel não desmentia, nem se chateava quando era pronunciada a alcunha.
O Zé esteve presente na grande maioria das farras do Manel Papelão. Aqueles almoços e jantares no Carraço, restaurante no cimo de um monte com o mesmo nome, eram o fim da picada.
O Manel Papelão era o rei do Carraço. Muitas litradas entravam por aquelas goelas abaixo. O pior era descer no final, até à estrada onde se encontrava o jeep. Os trambolhões e cambalhotas que o Ti Manel dava, se fossem feitos num campeonato de ginástica, pelo seu grau de dificuldade, davam de certeza direito a uma medalha de ouro.
Houve uma altura em que por influências exteriores, o Manuel Papelão e o Zé se zangaram.
Apesar da diferença de idades atingir quase as quatro décadas, eles eram bons amigos e não fazia sentido estarem de costas voltadas durante muito tempo. Assim, passados aí três meses de olhares de esguelha, encontraram-se numa das habituais festarolas, comendo um leitão, assado na padaria da Base.
Como sempre acontecia, a festa durou até às tantas, o álcool já era muito e os dois acabaram por dar um grande abraço e fazer as pazes. É claro que, para comemorar, beberam-se mais uns litros de cerveja, que não estavam no orçamento do Manuel Papelão. Ficou completamente bêbado, quase sem se suster de pé e foi necessário ajudá-lo a ir para o quarto.
Os quartos eram de três camas e a do Manuel Papelão ficava ao fundo do lado direito, encostada à parede. Ao ver a cama, o nosso amigo deu um valente urro e deixou-se cair para trás, bateu com a cabeça na parede, fechou os olhos e começou aos gritos:
— Ai Jesus que estou cego... estou cego... estou cego...
Como não parasse de gritar, o pessoal começou a ficar atrapalhado. Foi-se buscar água fresca, passou-se pela testa, mas o nosso amigo continuava com a mesma cantilena: “estou cego... estou cego...”
Começa a aparecer mais gente que tinha acordado com o barulho e logo se decide transportar o Manuel Papelão para a enfermaria.
Quando a ambulância já vinha a caminho, o Zé apercebe-se que o Ti Manel, desde que se sentara na cama, ainda não tinha aberto os olhos e atira-lhe:
— Abra os olhos, porra, como é que quer ver com eles fechados?
O Manuel Papelão, como que acordado de um pesadelo, abre os olhos e esboçando um sorriso de alívio e satisfação, diz:
— Já estou bom... já vejo... a água fez-me bem...
É claro que o pessoal não se conteve. Rebolou-se pelo chão em estridentes gargalhadas, que acordaram todos os que ainda resistiam à barulheira das cinco da manhã.
Para acabar a noite, porque o dia já estava a nascer e também porque ao fim e ao cabo, todos se sentiam aliviados com o susto apanhado, foram buscar uma garrafita de whisky ao frigorífico e beberam até lhe ver o fundo.
Dez minutos debaixo do chuveiro para retemperar forças e iniciar mais um dia de trabalho, como sempre bastante cansativo.
Com o Manel Papelão a ver cada vez melhor...
Crónicas Soltas de uma Guerra em África, José Leal
“This I want to believe implicitly: man was born for love and revolution.” – Osamu Dazai