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Jornal Escolar AE Muralhas do Minho | 2023-2024


Conhecendo Mónica Baldaque

Ana Marinho e Gabriela Lameira, 11.º B | 02-10-2023

O projeto “aLer mais e melhor” contempla um conjunto de ações centradas na divulgação de materiais e promoção de eventos de leitura na comunidade.

Auditório da Biblioteca Municipal de Valença

No dia 28 de setembro de 2023, duas turmas da Escola Básica e Secundária de Muralhas do Minho dirigiram-se à biblioteca municipal para estar à conversa com Mónica Baldaque, de 77 anos de idade.

A escritora veio partilhar connosco um pouco da sua surpreendente obra Sapatos de Corda, enquanto homenageava e festejava os cem anos de sua mãe, Augustina Bessa-Luís.

A resenha da sua vida
Aos 14 anos, Mónica Baldaque, começou a frequentar um colégio interno de freiras. A adaptação foi bastante atribulada, tendo passado por um episódio impressionante: beijar a mão do capelão morto! No colégio, apesar de toda a disciplina e rigor, encontrou forma de gostar da experiência (”Fui buscar forças ao inferno”).

Uma das situações mais marcantes foi o facto de a mãe lhe escrever cartas diretas, incisivas e até um pouco “assustadoras”. A escritora confessa que hesitava em abri-las, com um certo medo, e, quando o fazia, era às escondidas. Nestas cartas, a mãe retratava-a na perfeição, o que lhe causava um grande impacto emocional, questionando-se sobre como a mãe a conhecia tão bem, mesmo estando tão distante.

Relativamente à relação mãe e filha, uma docente presente na sessão questionou: “Tinha uma relação próxima com a sua mãe?”. A escritora respondeu “Não muito próxima e não muito íntima, cada uma no seu lugar”. No entanto, Mónica Baldaque fala com carinho das qualidades da mãe: “Era uma boa conversadora, mas sobretudo uma boa ouvinte”, não distinguia classes, todas as pessoas eram iguais, falava com elas como se fossem pessoas letradas. Gostava de ouvir as pessoas e aprofundar as suas histórias. “Todos temos a mesma alma”, dizia com frequência.

Curiosidades do público
Durante o encontro, uma das perguntas colocadas à autora foi: “Quantos livros é que escreveu?”, à qual respondeu: “Nove”. Acrescentou ainda que as capas dos livros devem estar relacionadas com o conteúdo e devem ser chamativas, de forma a motivar para o ler. De seguida, perguntaram: “Para além da sua mãe, quais são as suas inspirações?” Mónica Baldaque respondeu: “O mundo ao meu redor com um toque de imaginação”.

Por último, uma docente perguntou: “A sua carreira foi influenciada pelo facto de a sua mãe ser escritora?” Mónica Baldaque respondeu: “Complicou-me a vida, até evitava dizer quem era”, afirmando que acabou por se tornar um “fardo”.

Finda a ronda de perguntas, a autora desafiou os jovens a manterem o registo de um diário, valor que a sua mãe também lhe passou.

O seu livro Sapatos de Corda
Ao longo da sua vida, a escritora, com base nos encontros, experiências e angústias vividos pela mãe e pela própria, começou a escrever as suas memórias.

O livro Sapatos de Corda, tal como Memórias Laurentinas, de sua mãe, relata as suas próprias memórias. A capa reflete a praia que frequentava em Esposende e, em particular, a imagem que ficou na sua memória do pôr-do-sol a que assistia com a sua mãe, que calçava uns sapatos de corda. Enquanto observava a mãe a caminhar pela areia, entre os raios de sol, esta parecia que desaparecia no horizonte. A imagem, gravada na sua memória, serviu de inspiração para a capa. Um aluno pediu para descrever melhor essa imagem, tendo a autora dito que “não deixava pegadas, era como se flutuasse, e às vezes até desparecia”. Uma docente acrescentou ainda: “Quando a imagem da sua mãe desaparecia, o que lhe passava pela cabeça?”, tendo respondido que sentia “muito terror”.

No final deste encontro, em que o público ficou impressionado com a vida da autora, a relação com a mãe e as suas obras, a autora revelou que vai ser lançado um filme sobre uma obra de Agustina Bessa-Luís, A Sibila. Realizado por Eduardo Brito, tem estreia prevista para o dia 12 de outubro de 2023. E desta forma subtil, a autora lançou um convite a todos os presentes e inconscientemente reforçou a importância que a mãe teve na sua vida enquanto pessoa e escritora.

“A word after a word after a word is power.” – Margaret Atwood