Escolapress
Jornal Escolar AE Muralhas do Minho | 2025-2026
Os Contos Imperfeitos estão de volta!
Turma 12.º B | 12-12-2025
A escrita destes contos contou com a
colaboração dos nossos provérbios e até da IA.
Desafios que se concretizam e que extrapolam o que estava adquirido. A
base é o nosso saber popular, o desafio é a inovação tecnológica.
De forma simples, estão os Contos para serem lidos à lareira nestes dias de chuva.
A Âncora e o Sonho
Eliana Alves
Na freguesia de Sanfins, onde os invernos são frios, mas os corações quentes, vivia o Mateus — um rapaz franzino, de olhos curiosos e sonhos grandes, grandes demais para os limites da aldeia. Filho de pedreiro e neto de lavradores, parecia ter nascido virado para o mundo, com o olhar sempre a perder-se para além dos montes, como se visse o mar mesmo ali, atrás das vinhas.
Desde pequeno dizia que queria ser marinheiro.
— Um marinheiro em Sanfins? — riam os vizinhos. O mais perto que temos de mar é a ribeira, e mesmo essa, às vezes, seca!
Mas o Mateus respondia sempre com a mesma teimosia tranquila:
— Água mole em pedra dura, tanto bate até que fura.
Poucos acreditavam nele, exceto a professora Maria José Sá, que o ensinava na escola da freguesia. Era exigente, mas justa, e via no Mateus qualquer coisa de especial — uma fome de mundo, uma vontade de aprender. Sempre que ele falava do mar, ela sorria e dizia:
— Vai sonhando, rapaz… mas vai estudando também. A água só fura a pedra, porque nunca desiste.
Mateus cresceu com dificuldades. Reprovou uma vez, foi gozado pelos colegas, e alguns adultos diziam-lhe para “ter juízo” e ficar por Sanfins. Mas ele não desistia. Lia tudo o que podia, construía barquinhos de madeira e sabia os nomes dos oceanos de cor.
Aos vinte e dois anos, com pouco dinheiro, mas muita coragem, despediu-se da família na paragem do autocarro. Levava uma mochila às costas, um caderno cheio de sonhos… e uma carta de recomendações escrita à mão pela professora Maria José Sá.
Em Lisboa, trabalhou em cafés, lavou pratos, varreu cais. Tentou entrar na escola náutica. À primeira disseram que não. À segunda também. Mas à terceira… entrou.
Quando voltou a Sanfins, anos depois, vinha de farda vestida, boné da Marinha Mercante na cabeça, e um sorriso largo como o mar.
Toda a freguesia saiu à rua para o ver. A professora Maria José Sá, já com cabelos brancos, esperava-o junto ao coreto.
Mateus ajoelhou-se, num gesto de brincadeira e carinho, e ofereceu-lhe uma pequena âncora de madeira.
— Foi a professora que me ensinou a não desistir.
Ela apertou-lhe as mãos e disse:
— Água mole…
E ele completou:
— …em pedra dura, tanto bate até que fura.

A Mercearia do Ernesto
José Neto
Amigos amigos, negócios à parte
Ernesto e Damião eram amigos, antes das suas vidas se complicarem. Jogavam à bola na rua, onde o chão era de terra, trocavam cartas nos seus intervalos e, depois de crescidos, dividiram até os silêncios difíceis da vida adulta. Tinham essa amizade feita de poucas palavras.
Foi Damião quem teve a ideia: abrir uma mercearia pequena, no bairro, com legumes frescos, pão do dia e café feito na hora. “Vai ser simples, mas vai ser nosso.” Ernesto aceitou imediatamente e um aperto de mão bastou.
No começo, tudo parecia fácil. A amizade dava conta do resto: Ernesto abria cedo, Damião fechava tarde. Dividiam risadas, reclamações de clientes e até as sobras dos pães. Não havia burocracia, apenas confiança. Mas, com o tempo, surgiram as dificuldades. Damião fazia descontos à vizinha, vendia fiado ao primo e esquecia-se de anotar no caderno as coisas cobradas. “É tudo gente nossa”, dizia. Ernesto, mais calado, começou a guardar as contas num envelope pardo e os sentimentos num canto da garganta.
Um dia, Ernesto chamou Damião para conversar. Não discutiu, mas disse o que precisava: que amizade era semente, mas negócio precisava de cerca, de regra, de papel assinado. Damião ofendeu-se e respondeu que confiança era mais do que contrato. Que se não dava para confiar nele, então não dava para mais nada.
No dia seguinte, Damião não apareceu. Nem no outro. Ernesto soube depois que ele tinha arranjado um trabalho longe, numa transportadora.
A mercearia ficou com Ernesto. Continuou a funcionar, mas dessa vez corretamente. A placa da porta mudou: agora chama-se “Entrelinhas”.
De vez em quando, Ernesto faz o café e olha para o banco vazio na calçada. E pensa que sim, amizade é algo sagrado. Mas talvez seja justamente por isso que não se deve misturar com troco, recibo e prateleira.
Porque amigos são amigos. E negócios… negócios.

A paciência é a chave da sabedoria
Inês Esteves
Nunca gostei de esperar.
Nem por mensagens, nem por pessoas, nem por mim mesma.
A verdade é essa.
Sempre fui daquelas que, quando decide, quer agora.
Se a resposta não chega em cinco minutos, eu já construí dez cenários,
sete discussões e uma conclusão que raramente tem fundamento.
Mas é o que é.
“A paciência é a chave da sabedoria,” disseram-me um dia, com aquele ar
sereno de quem nunca esperou três horas por uma resposta vista.
E eu? Só me apeteceu rir.
Chave da sabedoria?
Se for, deve estar trancada nalgum sítio onde eu ainda não entrei.
Sempre preferi portas abertas ou então escancaradas, mesmo à bruta.
Com o tempo e contra todas as minhas vontades
comecei a perceber que a pressa não me levava a lado nenhum.
Só me consumia por dentro.
Tanta urgência, e mesmo assim, nada se adiantava.
Pelo contrário: acabava por perder o que importava.
Gente que não soube esperar por mim.
Coisas que poderiam ter sido, se eu tivesse parado um segundo.
E foi aí que percebi: o mundo não responde melhor a quem grita.
Responde a quem sabe esperar… ou pelo menos disfarça bem.
Ainda sou impaciente,
mas já sei calar quando não é hora.
Já não exijo que tudo se resolva na minha velocidade.
Aprendi a respirar antes de responder,
a pensar antes de acusar,
e a perceber que o tempo dos outros não gira à volta do meu pulso.
Paciência, para mim, não é virtude.
É sobrevivência emocional.
É uma conversa interna que diz:
“Não precisas controlar tudo para que tudo te pertença.”
Ainda me custa.
Mas também já não corro para bater em portas fechadas.
Se for para abrir, que se abra quando fizer sentido.
E se não abrir… paciência.
Sabedoria?
Não sei se lá chego.
Mas se esta chave não abrir nada,
pelo menos já aprendi a não partir a porta.

A Pedra e a Gota
Rodrigo Barbosa
Num canto esquecido da serra, onde os ventos sussurravam segredos antigos e os riachos cantavam melodias sem fim, havia uma pedra. Não era uma pedra especial, não reluzia ao sol, não tinha forma curiosa. Era apenas uma pedra, rígida, imóvel, acostumada ao silêncio e à solidão.
Acima dela, presa numa folha curva de um velho carvalho, pendia uma gota de água. Frágil, transparente, quase nada. Todos os dias, ela caía — ploc — sobre a pedra. Sempre no mesmo lugar. Sempre com a mesma leveza.
— Por que insiste? — perguntou a pedra certa manhã. — Não vê que sou feita de rocha? Milhares de anos resistindo ao tempo. Uma gota como tu não vai mudar nada.
A gota apenas sorriu, antes de cair novamente. Ploc.
E assim passou o tempo. Chuvas vieram, folhas caíram, o vento mudou de direção. A pedra permanecia. A gota também.
— Desista — resmungava a pedra, cansada da repetição. — Isso não é persistência, é tolice.
Mas a gota não discutia. Apenas seguia o seu caminho. Ploc.
Décadas depois, os animais da floresta passavam por ali e notavam algo curioso: bem no centro da pedra havia uma pequena cavidade, lisa e profunda. Um buraco esculpido pela insistência daquilo que parecia insignificante.
Um esquilo, admirado, comentou:
— Quem diria… que algo tão suave poderia marcar algo tão duro?
Lá de cima, outra gota preparava-se para cair, com o mesmo brilho sereno de sempre. Pois «água mole em pedra dura, tanto dá até que fura!».

Em casa de ferreiro, espeto de pau
Miguel Lameira
O senhor Augusto era um ferreiro famoso na vila de São Lourenço. Desde portões de quintal até varões de cortinado, não havia ferro que lhe resistisse. As pessoas diziam: “Quem tem Augusto, tem obra de mestre.”
Mas havia algo curioso, em casa do próprio mestre, não havia uma única peça de ferro feita por ele. A esposa, dona Alzira, queixava-se quase todos os dias.
— Augusto, não há paciência! Passas o dia a fazer grelhas para os outros e aqui em casa assamos o chouriço num pau de loureiro!
— Oh, Alzira, não comeces. Tenho a encomenda do presidente da junta. Amanhã faço-te o espeto.
Mas o “amanhã” de Augusto era como o verão em abril: prometido, mas raro.
Certa noite, enquanto jantavam, o velho espeto de pau cedeu com o peso do chouriço. Estalou-se ao meio e o chouriço caiu diretamente nas brasas. A sala encheu-se de fumo e cheiro a queimado.
— Vês?! — ralhou Alzira, abanando o fumo com o pano. — Em casa de ferreiro, espeto de pau! Sempre a mesma história!
Augusto ficou calado, envergonhado. Olhou para o pau partido, depois para as mãos calejadas. Tinham servido tanta gente, menos a sua própria casa.
Na manhã seguinte, levantou-se mais cedo do que o galo. Na oficina, moldou com cuidado uma barra de ferro, afinou as pontas e torceu o cabo com um trabalho tão bonito que até dava gosto ver. Gravou no cabo as iniciais "A & A" — Augusto e Alzira.
Ao jantar, apareceu com o espeto embrulhado num pano.
— Toma, mulher. Chega de pau. Em casa de ferreiro, espeto de ferro! — disse ele, estendendo-lhe o presente.
Alzira sorriu, emocionada. Nessa noite, o chouriço assado soube diferente.
Soube a promessa cumprida.

Éramos poucos... e pariu a avó
Pedro Sousa
Na Vila de Valença, mais precisamente, na Urgeira, o Senhor Zé, homem de bigode grosso, chapéu esfarrapado e paciência que já havia visto dias melhores, morava sozinho, viúvo de décadas, dizendo sempre que já não tinha idade para surpresas. Contudo, o destino gostava de contra-atacar.
Num verão muito quente, a casa do avô Zé encheu-se de pessoas. O filho, que havia perdido a esposa, foi o primeiro a chegar, tendo levado consigo os dois filhos adolescentes. De seguida, chegou a filha, que havia fugido da cidade com o cão, o gato e um novo namorado argentino que tocava flauta às sete da manhã. Alguns dias depois, chegou lá um sobrinho que estava desempregado e bateu à porta, pedindo:
— Tio Zé, deixe-me ficar só por uns dias...
A cada novo hóspede, o avô Zé franzia o sobrolho, servia mais sopa e resmungava:
— Já não somos casa, somos estação de comboios.
Naquela noite, já com dez pessoas na velha casa de três quartos, o avô sentou-se sobre a varanda, balançando a cabeça. A campainha tocou novamente.
Era a enfermeira do lar, acompanhada por uma senhora pequena, que usava um vestido de flores e tinha os olhos a brilhar como o fogo:
— Senhor Zé… a sua mãe, dona Rosa, afirma que está farta do lar e que vem morar consigo.
Zé, pálido, perguntou:
— A minha mãe?! Mas ela tem 93 anos!
— 94 — corrigiu a velha Rosa, já entrando com a mala de rodinhas. — E não venham com histórias que isto ainda é a minha casa!
Foi nessa altura que Zé suspirou, profundamente, olhou para o céu e disse:
— Éramos poucos... y parió la abuela.

Espíritos do teatro
Sara Esteves
“A curiosidade matou o gato” é uma expressão utilizada para controlar os curiosos e mantê-los longe da verdade.
Eu e a Filipa fomos avisadas um monte de vezes para não entrar em edifícios abandonados em tentativas ridículas de conversar com fantasmas e espíritos. Mas isso nunca nos impediu.
— Tens a certeza de que vamos no caminho certo, Sally? — Inquiriu Filipa.
— Sim… — respondi pela enésima vez.
Enquanto andava de bicicleta com o meu irmão mais velho pelas partes exteriores da cidade, tinha descoberto um novo local para explorar: um edifício de teatro abandonado.
A Filipa ficou maravilhada ao ver o tamanho do local, e ambas ficamos fascinadas ao ver o interior. Um teatro antigo em estado quase perfeito. Este sítio magnífico fechara há vários anos devido a um incêndio que levara 24 pessoas, a maioria sendo atores e trabalhadores. Eu fiz a minha pesquisa antes de ali entrar a meio da noite com lanternas, claro!
Tiramos algumas fotos do espaço e a nós próprias, e decidimos começar no palco, onde montamos sensores de movimento e ligamos a caixa de espíritos, uma peça de equipamento que capta frequências de rádio e as transforma em palavras.
Depois de algum tempo sem conseguirmos respostas com sentido, decidimos ir embora.
Quando nos aproximávamos da porta, uma das vigas de luz do palco desabou com um estrondo.
Eu e a Filipa saímos do teatro a rir das caras uma da outra, quando ouvimos o estrondo.
O que fazemos é perigoso, mas divertimo-nos sempre. E nunca se sabe o que os fantasmas vão contar.
“A curiosidade matou o gato, mas a satisfação trouxe-o de volta.”

Mais vale um pé no travão que dois no caixão
Tiago Garceis
O Rui era daquelas almas inquietas. Desde miúdo que se dizia “nascido para a velocidade” , e os vizinhos do bairro da Avenida Miguel Dantas, confirmavam com um suspiro sempre que o ouviam rasgar a rua com o seu carro rebaixado, música alta e motor a berrar como alma penada.
— Se continuas assim, ainda te esbardalhas numa curva, rapaz — avisava o senhor Anselmo, reformado da GNR, sempre à janela com os braços cruzados.
— Ó senhor Anselmo, não se preocupe! Eu tenho reflexos de piloto! — ria-se o Rui, a piscar o olho e a meter a primeira com um ronco.
Numa noite de sexta-feira, o Rui e os amigos combinaram ir até ao miradouro da serra. Era costume entre eles: subir a estrada cheia de curvas, faróis a cortar a escuridão, música a rebentar nos altifalantes, e o cheiro a borracha a fazer parte da festa.
Mas nessa noite, havia nevoeiro. Daqueles cerrados, que até o silêncio parece mais denso.
— Pá, se calhar hoje não é boa ideia subir — disse o Marco, o mais calmo do grupo.
— Medricas! O que é que pode acontecer? Conheço aquela estrada como a palma da mão — atirou o Rui, com um sorriso de desafio.
E lá foram. O carro do Rui ia à frente, como sempre. A cada curva, acelerava um pouco mais, convencido de que era imbatível. Até que, numa das voltas mais apertadas, os pneus perderam a aderência. O carro derrapou, rodopiou e, por milagre, não saiu da estrada. Ficou atravessado, de frente para o abismo.
Dentro do carro, o coração do Rui batia como um martelo. As mãos tremiam no volante. Ficou ali, em silêncio, a ouvir apenas o som do motor ainda a ronronar e a respiração ofegante dos amigos no carro de trás, que já tinham parado.
Quando finalmente saiu, encostou-se ao capot e ficou a olhar para o nada. O Marco aproximou-se em silêncio.
— Viste-te ao espelho. Agora percebes?
O Rui engoliu em seco.
— Epá… foi por um triz. Nunca mais.
O Marco pousou-lhe a mão no ombro e disse:
— Lembra-te do que diz o velho Anselmo: mais vale um pé no travão que dois no caixão.
No dia seguinte, o Rui passou pela janela do senhor Anselmo. Tirou o boné e acenou com respeito.
— O senhor tinha razão.
— Pois… mas felizmente ainda vais a tempo de aprender.
Desde então, o carro do Rui nunca mais se ouviu a rasgar a rua. Ia devagar, com música baixa e pisca a funcionar. E os mais novos da aldeia começaram a ouvi-lo repetir, com ar sério: mais vale um pé no travão que dois no caixão.

Miguel e o Galo da Treta
Bia Ferreira
Era uma vez um rapaz chamado Miguel, que vivia numa aldeia onde todos sabiam da sua fama: mais depressa gastava uma moeda do que o tempo que levava a dizê-lo. Um dia, acordou com uma ideia brilhante (ou assim pensava ele) e correu à feira para comprar um galo falante que, segundo o vendedor (um tipo com mais lábia que juízo), punha ovos de ouro.
— Isto sim é que é negócio! — exclamou Miguel, já se imaginando a nadar em moedas.
O problema é que Miguel usou o dinheiro do mês inteiro, incluindo o que devia à senhora Maria, dona da mercearia. Quando chegou a casa, o galo só piava, cacarejava e em vez de ovos de ouro, deixava lembranças bem menos valiosas.
No dia seguinte, foi pedir ajuda ao avô Rui, um homem sábio e cheio de ditados na ponta da língua. O velho ouviu a história e coçou a cabeça:
— Ó Miguel, o dinheiro não cai do céu!
— Mas avô… o homem jurou que era um galo mágico!
— E tu juraste que ias aprender a poupar o mês passado. Olha lá: grão a grão, enche a galinha o papo. Não é com pressa e sonhos de ouro que se enche a carteira.
— E agora? O que faço avô?
— Começa por devolver o galo e, acima de tudo, não gastes o que não tens!
Miguel engoliu o orgulho e aprendeu a lição. Começou a trabalhar com o avô, a vender ovos de galinhas normais, e começou a poupar um pouquinho por semana. Um ano depois, comprou uma bicicleta nova com o seu dinheiro.
E dizem que até hoje, quando vê uma galinha, não pensa em ovos de ouro, mas lembra-se: grão a grão…

O Espelho Coberto
Joana Rodrigues
Na casa da rua antiga, vivia Inês com o marido, Augusto, um homem de fala mansa e passos medidos. Amavam-se como quem se acostuma a um cobertor velho: com conforto, mas sem ardor.
Todas as manhãs, Augusto saía cedo, dizia que ia à biblioteca. Inês, que já não acreditava em quase nada, acreditava nele — não por inocência, mas por escolha. Cobria o espelho da sala com um pano de linho e passava os dias a costurar, sempre de olhos baixos, como quem aprende a não ver.
A criada, Marta, murmurava o que via nas ruas: Augusto passeava com outra mulher, mais nova, de vestido vermelho e gargalhadas soltas. Um escândalo a céu aberto. Mas Inês calava-se, como se o silêncio fosse um lugar seguro.
— A senhora não vai fazer nada? — arriscou Marta, certa manhã.
Inês ergueu os olhos pela primeira vez e disse:
— Se eu não vir, não sangro. Se não souber, continuo inteira. O que os olhos não veem…
— … o coração não sente? — completou Marta, incrédula.
— Não, minha filha — disse Inês, pousando a agulha. — O coração sente sempre. Mas sente menos.
E voltou à costura, alinhando os pontos como quem tenta segurar a vida com linhas invisíveis.
Naquela casa, o amor não morrera — apenas aprendera a viver de olhos fechados.

O Roubo Perfeito
Ana Rodrigues
Na cidade invisível de Brumaviva, só os ladrões podiam viver. Era regra antiga: quem não fosse trapaceiro era expulso pelos próprios vizinhos.
Zara, a mais astuta de todos, roubava corações — literalmente. Guardava-os em frascos de vidro, batendo nas estantes como relógios vivos. Diziam que ninguém escapava ao seu encanto.
Um dia, chegou à cidade um forasteiro encapuçado. Chamava-se Luno e, em menos de uma noite, limpou metade dos cofres — incluindo o cofre secreto de Zara.
Ela furiosa, jurou vingança. Perseguiu-o pelos telhados e, no beco mais escuro, recuperou o frasco do seu próprio coração.
— Ladrão que rouba ladrão… — sussurrou ele, já cercado.
— … tem cem anos de perdão — completou ela, sorrindo.
E juntos desapareceram na bruma, como um roubo bem feito: sem deixar rasto, mas levando tudo.

Para ladrão, ladrão e meio
Tomás Gomes
Numa tarde de terça-feira, Samuel, um jovem adolescente, estava no seu “quarto mágico” a compor uma nova música quando foi interrompido pela mãe. Ela pediu-lhe um favor: ir à pequena loja do bairro comprar leite e ovos. Entregou-lhe 3,90 euros, o valor exato para fazer a compra.
Samuel, depois de alguma insistência da mãe, lá saiu para a loja, contrariado por ter sido interrompido. Ao chegar, reparou que os ovos estavam com 50% de desconto. Pediu então ao funcionário, com quem não simpatizava, um pacote de leite e uma dúzia de ovos.
O homem teve de ir às traseiras buscar os ovos e, enquanto esperava, Samuel observou a loja. Foi então que viu um chocolate de que gostava muito e, na sua mente de adolescente, pensou que ninguém daria pela falta de um simples chocolate. Sem hesitar, colocou-o no bolso do casaco.
O funcionário estava nas traseiras, onde havia um sistema de vigilância que Samuel não sabia que existia. Quando viu Samuel a roubar, ao invés de o enfrentar, pensou em ser mais esperto do que ele e ofereceu-lhe um frasco de marmelada estragada. Samuel, quando recebeu o frasco, ficou surpreendido, mas pagou o resto das compras e guardou o troco para si.
Ao chegar a casa, Samuel entregou as compras à mãe e disse-lhe que tinha comprado a marmelada, porque os ovos estavam em promoção.
Alguns dias depois, a mãe de Samuel voltou a interrompê-lo, dizendo que se estava a sentir mal depois de ter comido a marmelada. Atrapalhado, ele acabou por confessar toda a verdade. Ela, que já sabia como o funcionário lidava com quem roubava, ficou muito aborrecida.
Já recuperada, conversou com Samuel sobre a situação e disse-lhe: “Filho, para ladrão, ladrão e meio…”, frase que Samuel recorda até hoje.

Quem anda com o Lobo uiva como ele
Diogo Fernandes
Numa aldeia isolada e rodeada de montanhas, vivia um rapaz chamado Miguel, conhecido pela sua simpatia e humildade.
Numa sexta-feira de tarde, ele e os seus colegas brincavam no intervalo entre as aulas, quando Marcos e Francisco, amigos próximos, lhe pediram um favor.
— Miguel, Miguel! Anda aqui, eu e o Marcos tivemos uma ideia.
— Que ideia tiveram agora? — perguntava Miguel curioso.
— O Marcos quer que eu o ponha dentro do cacifo, mas eu não consigo fechá-lo sozinho. Preciso da tua ajuda.
— Não sei, e se a professora nos apanhar, vamos ficar todos de castigo.
— Não nos vai apanhar — disse o Francisco.
— Acabou de tocar e a professora já foi para a sala dos professores. Só volta daqui a 15 minutos. — Completou o Marcos.
— Não sejas medricas e anda ajudar-me.
Miguel, mesmo sabendo que era muito arriscado, concordou, após tanta pressão dos colegas.
Estavam a fechar a porta do cacifo, quando, de repente, a professora voltou à sala porque se tinha esquecido de algo, e os apanhou com as mãos na massa.
— O que estão a fazer os meninos?
— Nada, professora.
Foi no momento que eles responderam que a professora percebeu que estava alguém dentro do cacifo.
— Quem está aí? — Perguntou a professora.
Quando o Francisco finalmente saiu, a professora ficou furiosa com os três meninos e eles levaram uma bolinha vermelha na carta de comportamento.
Mal Miguel chegou a casa, a mãe perguntou-lhe pela carta do comportamento para ela assinar. Nesse instante, Miguel entregou-lhe nervosamente a carta. A mãe ficou muito aborrecida com ele e pediu uma explicação para aquela bolinha vermelha. Miguel explicou tudo.
A mãe disse um provérbio muito famoso naquela aldeia.
— Quem anda com o lobo uiva como ele.
Daí para a frente Miguel nunca mais aceitou propostas, mesmo quando se sentia pressionado.

Quem conta um conto acrescenta sempre um ponto
Gonçalo Almeida
“Quem conta um conto acrescenta sempre um ponto”.
Este era o provérbio que o pequeno e delgado Nuninho ouvia através dos seus conhecidos mais velhos e experientes do bairro…
Com os seus 13 anos, de seu nome Nuno Lopes, este jovem conhecia, ou achava que conhecia, meio “mundo” que por ali, nos Olivais, parava. Sempre com os seus dois amigos eternos, lá iam eles mais um dia disputar o grande jogo de futebol de sábado.
Já mesmo depois das equipas formadas, apareceu um homem, sim … um homem com um ar misterioso, com a sua velha bola de couro debaixo do braço tatuado. Um verdadeiro corpo de atleta, alto, magro e com muita vontade de jogar à bola . Ninguém sabia de onde vinha, mas em pouco tempo já diziam que tinha ensinado o Ronaldo a bater penáltis e tinha jogado com o Figo antes de ele ir para o Real Madrid.
Mas é claro, cada um contava uma coisa. O Andrezinho, filho da Adelina das Roscas, recordava o seu toque de primeira, o seu passe e como não era possível esquecer, a sua grande cabeçada de costas.
O Nuninho? Este grande rapaz viu tudo. Ou pelo menos uma parte. Lembra-se dos dribles que ele fazia com os joelhos e até de quando ele furou a rede com o grande remate à Roberto Carlos.
No sábado seguinte, tudo à espera do homem, mas este já tinha desaparecido, nunca mais ninguém soube dele, nem mesmo o Jorge Mendes.
Mas a história ficou, e cada vez que se conta, muda sempre um bocadinho. Agora, no café, já se fala que ele jogou descalço.
Nesse dia, o pequeno Nuno aprendeu que no bairro, como na vida, ninguém conta nada igual. Cada um acrescenta o seu ponto, o seu toque, a sua versão.
E lá no fundo, é isso que faz um conto viver.

Quem ri por último ri melhor
Margarida Carvalho
Em Hogwards, onde os dragões dormem em montanhas de cristais e as árvores falam com o vento, vivia um jovem feiticeiro chamado Harry. Todos, na escola, gozavam com ele. Os feitiços nunca saíam bem, os caldeirões explodiam e até a vassoura mágica se recusava-se a obedecer.
A pessoa que mais o maltratava era Draco, o aluno mais brilhante, sempre rodeado de aplausos e gargalhadas. Harry, apesar de não ser reconhecido, tinha um melhor amigo, Ronald, mais conhecido por Ron. Assim, quando Harry era gozado, Ron enfrentava tudo e todos para defendê-lo.
Um certo dia, foi anunciado o Torneio Tribruxo, onde o vencedor ganharia o Cálice de Fogo. Draco inscreveu-se com convicção, pois tinha a certeza que iria ganhar. Então, Ron convenceu Harry a participar e, sem hesitar, ele assim o fez. Apesar de ser ignorado, ninguém sabia que ele era na verdade o escolhido, isto é, o feiticeiro mais talentoso da história dos feiticeiros.
No dia do torneio, Draco exibiu feitiços de fogo e gelo com arrogância. Harry, com as mãos trémulas, apenas murmurou palavras antigas que ninguém reconheceu. A multidão riu-se. Até os feiticeiros mais famosos não o valorizaram e ignoraram-no. Até que, de repente, o céu ficou escuro, surgiram trovões dourados e um espírito ancestral apareceu. Albus Dumbledore, um dos feiticeiros mais respeitados de todos os tempos, aproximou-se de Harry e curvou-se diante dele. Todos ficaram em silêncio, espantados.
Harry acabou por ganhar o torneio, o respeito e tornou-se o melhor aluno da escola. Draco nunca mais fez troça dele. Harry apenas sorriu e ficou satisfeito com o que tinha conquistado. Assim, percebeu que quem ri por último ri melhor.

Quem sai aos seus
Daniela da Purificação
Família Alverca era a família mais criminosa e perigosa de todos os tempos.
Era uma família que vivia bastante bem em termos financeiros. No entanto, o que lhes dava maior prazer era a adrenalina, portanto, todos os meses preparavam um grande assalto à cidade, mas claro, ninguém suspeitava de nada. Era muito maldosa, a família, roubava e não permitia que mais ninguém roubasse as suas riquezas, entregavam os restantes criminosos à polícia num ato de traição perante os seus colegas.
Esmeralda era o membro mais jovem da família. Iria completar os seus dezasseis anos no dia seguinte e, finalmente, juntar-se-ia à equipa ACEA (Alverca o Crime É Aqui).
Adelaide, a avó de Esmeralda, era a líder/ estrategista, e quem planeava tudo, conhecia os horários dos seguranças e as rotas de fuga, mantinha a calma sob pressão, dava ordens e tomava decisões rápidas.
Kayra, irmã de Esmeralda, preenchia o cargo de técnica informática/ hacker, desligava qualquer alarme instalado, cortava as câmaras de segurança instaladas, abria os cofres eletrónicos e lidava com qualquer ferramenta digital.
Tom, o pai de Esmeralda, era o motorista de fuga, o responsável por levar o grupo em segurança antes e depois do assalto e possuía as rotas alternativas na cabeça. Conduzia como um louco.
Ângelo, tio de Esmeralda, possuía o cargo de intimidador/ segurança do grupo, controlava os reféns, lidava com os seguranças e garantia que ninguém tentava ser herói, era um ex-militar.
A mãe, Camila, era a especialista no arrombamento, lidava diretamente com os cofres, seja com explosivos, brocas ou outras técnicas específicas.
Chegou o grande dia. Esmeralda iria efetuar o seu primeiro assalto com a ACEA: assaltar o maior banco da cidade. Adelaide batizou Esmeralda como recruta recente, seria um braço extra para a equipa e tinha de fazer o que lhe fora ordenado, como vigiar reféns, carregar sacos e ajudar com os equipamentos, entre outras funções. Todos iniciaram a sua carreira nesse cargo até encontrarem uma função que gostassem e na qual fossem muito bons.
O motor da carrinha rugia pelas ruas ainda adormecidas, lá dentro o silêncio era pesado. Cada membro da família ocupava o seu posto, vestido e mascarado de preto:
— Cinco minutos e avançamos. Kayra, confirma o sistema! — ordenava a avó.
— Câmaras desativadas e alarme desligado por três minutos — informava Kayra à avó e, em seguida, olhava para a irmã. — Três minutos são o suficiente, se todos fizerem bem a vossa parte.
Esmeralda fazia uma careta à irmã.
À chegada, Tom para a carrinha na entrada lateral do banco e numa questão de segundos, as portas abrem-se. Ângelo é o primeiro a sair, entrando no edifício com determinação. Kayra corre para a sala de controlo e liga os dispositivos que interrompem o sinal de vigilância. Camila e Esmeralda dirigem-se ao cofre, seguindo o plano a rigor. Camila trabalha muito rápido, desmonta o sistema com ajuda da filha, que lhe passa as ferramentas sob instruções silenciosas. O cofre abre-se com um estalo e lá dentro encontram-se inúmeros blocos de notas empilhados e Esmeralda coloca, muito apressadamente, as notas dentro do saco que carregou.
— Isto não está certo! - murmura Esmeralda. — Porque o estamos a fazer?
— É de família, filha. Não temos um motivo válido, só nos está no sangue. — sussurra a mãe. — É como diz aquele ditado “Quem sai aos seus, não degenera”. Não desiludas a família.
Ditas essas palavras, dirigiram-se rapidamente para a entrada lateral. Lá fora, Tom mantém o motor a trabalhar e fixa o olhar atento no espelho retrovisor, enquanto Adelaide supervisiona cada passo da operação através de um auricular, controlando o tempo com muita atenção. Quando os primeiros sinais de alarme surgem ao longe, a família já está a caminho da saída e, em menos de cinco minutos, o banco encontra-se vazio, os reféns intactos e o dinheiro na mala da carrinha. A fuga decorre em silêncio, cada um mergulhado nos seus pensamentos, uns focados na condução, outros a recuperar o fôlego, outros a desligar o equipamento, e Esmeralda a perceber que aquele momento marcava o início de um novo capítulo, não apenas no crime, mas na tradição silenciosa da sua família.
Dezembro 2025
Não há sábado sem sol, domingo sem missa nem segunda sem preguiça