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Jornal Escolar AE Muralhas do Minho | 2025-2026


Uma amizade oportuna

Carolina Vaz Pereira | 27-01-2026

Imagem: shetu afroz

Naquela manhã de sábado, tinha todo o tempo do mundo. Trancou a porta do seu pequeno apartamento e saiu à rua como fazia todas as manhãs.

Lá fora, nada mudara. As pessoas deslocavam-se por entre os altos prédios sem já ver por onde andavam; os carros, agora sem cor, eram melancolicamente conduzidos por estradas tão alegres como quem nela se encontrava, e Vicente teve de colocar os seus auriculares para fugir um pouco àquela impessoalidade toda. Com as mãos nos bolsos, dirigiu-se à locomotiva amarela que acabara de chegar e, na sua arrogância, bastou-lhe um olhar de desdém para afastar a vizinha com quem falara muitas vezes.

No entanto, agora ninguém falava com ninguém. Paragem após paragem, mais e mais pessoas iam entrando e empurrando os outros passageiros, fazendo com que aqueles que tinham arranjado um lugar sentado se sentissem os seres mais sortudos do mundo.

Contudo, não passava disso. Eram somente puras interações silenciosas, à exceção de alguns protestantes que eram consecutivamente pisados e empurrados. Fora isso, o silêncio do mar encapelado. As pessoas entravam e saiam do elétrico e nem notavam a quem incomodavam, nem se desculpavam. Olhavam para os ecrãs. Fisicamente, estavam lá, mas viviam num mundo completamente à parte. Passavam muito tempo nesse mundo, as pessoas. Talvez até demasiado. Sabiam mais sobre a vida de desconhecidos muito conhecidos do que sobre o priminho que nascera, de um velho amigo que se divorciara ou de um companheiro que partira. Porém, era tudo normal. A impessoalidade reinava, e ninguém protestava, nem se apercebiam. O estranho era ler um jornal, o anormal era dizer bom dia, e perguntar algo só por curiosidade era completamente inaceitável.

Olhando para o seu reflexo no vidro do elétrico, Vicente relembrava a hipocrisia de alguns dos seus familiares e o interesse das falsas amizades que o levaram a distanciar-se daqueles que achava que amava. Juntamente com o seu coração de pedra, saiu do veículo junto à sua parte preferida da cidade: o jardim botânico.

Lá, tudo era diferente. Havia algo de magnífico naquele local que lhe transmitia uma sensação de esperança. Talvez fossem as coloridas flores, pensou, ou até as árvores que dançavam ao vento. Talvez fossem os pássaros que cantavam melodias merecedoras de um palco, os cisnes que nadavam no lago, ou os cães que buscavam os galhos que os donos lhes atiravam. Talvez fosse, muito provavelmente, aquele silêncio. Não a falta de comunicação, mas aquela calma que só a natureza podia proporcionar. No jardim, não havia nada a não ser a mais pura beleza. Não havia mentiras, não havia sorrisos falsos, não havia impessoalidade. Funcionava tudo de maneira tão simples mas ao mesmo tempo da maneira mais bela.

Por entre as árvores, ao lado do lago, estava a mesma senhora que Vicente via todas as vezes que lá ia para fugir à realidade e, como sempre, ali sentada no banco de madeira, lia a sua revista. Nunca ele pensara que também a velhota reparara nele, mas naquele dia, talvez por o seu jovem espírito contrastar com aquele arco-íris que era o jardim, ela dirigiu-se pela primeira vez a ele.

— Está tudo bem, rapaz? — perguntou com uma voz doce, que fez o jovem abrir-se como uma flor. Não conhecia a senhora de lado nenhum, mas mesmo assim sentiu-se seguro na sua presença, como se estivesse novamente em casa, ou tivesse encontrado a pessoa que tanto precisava.

— Como pode estar? Já nada é o mesmo. Não há confiança entre as pessoas… — desabafou.

— Tens razão. É difícil lidar com pessoas. É a lei da vida. Não há duas pessoas iguais. Por muito que procuremos, podemos até percorrer outros mundos que jamais encontraremos alguém como nós. Por vezes, as diferenças que tanto nos unem podem separar-nos da maneira mais inesperada… No fim tudo acaba bem, rapaz, temos é que dar tempo para que o mundo se reorganize… — refletiu a senhora.

— Como se chama? — perguntou Vicente.

A partir daquela manhã, reuniu-se todos os fins de semana com a Sra. Maria, com quem falava sobre os assuntos mais diversos, desde os mais atuais aos que remontavam aos primórdios da humanidade. Trocaram um enorme número de histórias e viveram aventuras inesquecíveis, estabelecendo uma amizade inquebrável que durou imensos anos. Claramente uma amizade inesperada, mas sem sombra de dúvida, uma amizade que não pôde surgir num momento mais oportuno.

“The only way to have a friend is to be one.” – Ralph Waldo Emerson