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O mito da meritocracia

Cidadania | 29-04-2026

A meritocracia é um sistema social no qual o poder, sucesso e recompensas são atribuídos com base no mérito individual, esforço, talento e desempenho.

Durante a maior parte do século XX, não houve músicos femininos na Orquestra Filarmónica de Nova Iorque. Nas décadas de 50 e 60, foram contratadas uma ou duas mulheres, mas, à parte isso, a proporção de mulheres permaneceu nula. Contudo, a partir dos anos setenta, algo mudou de repente e o número de executantes femininas começou a subir exponencialmente.

O volume de negócios das orquestras é extremamente baixo. A composição de uma orquestra costuma ser bastante estática — cerca de uma centena de músicos — e as contratações costumam ser vitalícias. Além do mais, é raro um músico ser despedido. Daí que, quando a proporção de mulheres na Filarmónica de Nova Iorque aumentou de 0% para 10% numa década, todos se perguntaram o que se tinha passado.

O que se tinha passado era que as audições passaram a ser feitas às cegas. Instituídas no início dos anos 1970, na sequência de um processo judicial, as audições às cegas são exatamente o que dizem ser: a comissão de contratação não consegue ver quem está a tocar na audição, porque existe um ecrã entre ela e o músico. Estes ecrãs tiveram um impacto imediato, pois, logo no início da década de 80 do século XX, as mulheres passaram a constituir 50% das novas contratações. Hoje em dia, a proporção de executantes femininas na Orquestra Filarmónica de Nova Iorque é superior a 45%. A simples instalação de um ecrã transformou o processo de audição da Filarmónica de Nova Iorque numa meritocracia.

Apesar de haver provas que sugerem que os Estados Unidos, como um todo, são menos meritocráticos do que outros países industrializados, é um facto que os americanos atribuem uma grande importância à meritocracia. Aliás, as estratégias de emprego e promoção ao longo das últimas décadas têm sido cada vez mais concebidas em função dessa mesma meritocracia. O problema é que há poucos indícios de que esta abordagem surta realmente efeito.

Na verdade, há fortes indícios de que não o faz. Um estudo de 248 análises de desempenho recolhidas junto de várias empresas tecnológicas sediadas nos EUA revelou que, ao invés do que se passa com os homens, as mulheres são alvo de críticas de personalidade negativas. As mulheres são apelidadas de prepotentes, cáusticas, estridentes, agressivas, emocionais e irracionais. De todos estes qualificativos, apenas o termo “agressivo” aparece nas críticas feitas aos homens, e por duas vezes com a indicação de que deveriam sê-lo ainda mais.

Lamentavelmente, vários estudos sobre bónus ou aumentos salariais relacionados com o desempenho descobriram que os homens caucasianos são recompensados a uma taxa mais elevada do que as mulheres e as minorias étnicas que apresentam o mesmíssimo desempenho. Um estudo sobre uma empresa financeira chegou a revelar uma diferença de 25% entre mulheres e homens nos bónus que premiavam o desempenho de tarefas iguais.

Ao pensarmos num génio, existem mais hipóteses de pensarmos num homem, dado que todos nós temos preconceitos inconscientes.

O preconceito sobre o brilhantismo é, em grande parte, o resultado da lacuna de dados: há tantos génios femininos que foram proscritos da história que nos esquecemos dos seus nomes. O resultado dessa lacuna leva a que, quando o “brilhantismo” é considerado um requisito para um dado emprego, o que acontece é que só os candidatos masculinos serão tidos em conta. Vários estudos descobriram que, quanto mais uma área for culturalmente vista como exigindo “brilhantismo” ou “talento bruto” das pessoas que nela trabalham — seja filosofia, matemática, física, composição musical, ou informática — menos mulheres haverá a estudar e a trabalhar nela. Não só não vemos as mulheres como sendo naturalmente brilhantes, como também parecemos ver a feminilidade como estando inversamente associada ao brilhantismo. Um estudo recente, no qual foram mostradas aos participantes fotos de professores de ciências masculinos e femininos em universidades de elite dos EUA, concluiu que o aspeto físico não tinha qualquer impacto na probabilidade de um homem ser visto como sendo cientista. No entanto, quando se tratava de mulheres, quanto mais estereotipadamente femininas elas pareciam, menos probabilidades tinham de que as pessoas as considerassem cientistas.

As escolas também estão a ensinar o preconceito sobre brilhantismo aos rapazes. Porém, após décadas a pedir às crianças para desenharem um cientista, e a constatar que as crianças desenhavam, esmagadoramente, homens, um estudo recente revelou que estávamos, finalmente, a tornar-nos menos sexistas. Assim, se na década de 60 do século XX, apenas 1% das crianças desenhavam mulheres cientistas, atualmente há 28% que o fazem. Isto é, obviamente, um progresso, mas encontra-se ainda muito longe da realidade. É que, no Reino Unido, o número de mulheres é efetivamente superior ao de homens numa enorme variedade de cursos de ciências.

Caroline Criado Perez, Invisible Women: Data Bias in a World Designed for Men. Abrams Press.

“A gender line... helps to keep women not on a pedestal, but in a cage.” – Ruth Bader Ginsburg