Escolapress
Jornal Escolar AE Muralhas do Minho | 2025-2026
Colaboração, pedagogia e conhecimento
Escolapress | 13-05-2026
O texto que aqui publicamos é um excerto do livro Viagem: por escolas em Portugal, de António Nóvoa.
Criar ambientes de colaboração é central para reforçar aprendizagens significativas baseadas em relações significativas. Não é possível exigir dedicação para esforços sem sentido. Sísifo é o contrário da educação. A colaboração implica reconhecer todas as presenças. Ninguém se deve esconder nas últimas filas da sala de aula. Não podemos continuar a ignorar os «esquecidos», que fazem a sua travessia pela escola como se nunca tivessem verdadeiramente entrado nela. Hoje, o desafio é ainda maior, com quase 20% de alunos de outras nacionalidades e culturas. Dar sentido às diversas presenças, histórias e percursos é condição necessária para um trabalho de colaboração.
A escola é um contexto diferente da vida. Essa diferença é a sua razão de ser. A escola é um espaço que não se destina a repetir a sociedade. Tem de ser um lugar protegido do frenesim do tempo, da competição, do consumo, do individualismo. Da escola espera-se que apresente outras possibilidades aos alunos, e não que aumente o que eles já têm, em excesso, na sociedade – ruído, agitação, divertimento. Liberdade não é «postar» fotos atrás de fotos, imagens de uma vida enganada – é a calma do tempo, e o silêncio. O ruído não deixa pensar. Sem pausa, não há pensamento. A colaboração exige continuidade, paciência, persistência. Devia ser o normal.
A palavra colaboração pode ser separada em três segmentos: co-labor-ação. Literalmente: ação através de um labor conjunto. A chave está no labor, trabalho. A colaboração não é uma mera declaração de intenções ou um gesto de boa vontade – é uma forma distinta de organizar o trabalho. Na pedagogia, implica um ambiente em que os alunos possam colaborar uns com os outros em determinadas tarefas e projetos, com o apoio de um ou vários professores. De nada serve forçar a colaboração, nomeadamente entre professores, se nada se alterar na organização do trabalho escolar.
Nas últimas décadas, as escolas foram acolhendo cada vez mais missões. A leitura dos projetos educativos ou dos planos e relatórios de atividades, documentos por vezes com centenas de páginas, revela bem a proliferação de iniciativas dos mais diversos tipos: das artes ao desporto, da prevenção da violência às questões de género, da justiça aos temas ambientais, do digital ao empreendedorismo, da saúde à literacia financeira, etc. As propostas vêm de todos os lados: de entidades e programas nacionais e europeus, de autarquias, de associações e fundações, de movimentos e grupos locais. A escola é o lugar mais óbvio, e também mais fácil, para promover estas atividades. Há um público cativo e pronto para novas ideias e experiências.
Se olharmos para cada uma destas iniciativas, caso a caso, são óbvios o seu interesse e o seu mérito. As crianças e os jovens tomam contacto com questões centrais do nosso tempo e educam-se. Ninguém se atreveria a negar apoio a uma só destas iniciativas. Mas, vistas no seu conjunto, elas transformam as escolas numa sucessão de atividades, frequentemente sem ligação entre si, e constituem um fator de dispersão do trabalho escolar.
Naturalmente, são propícias à colaboração. Nestas iniciativas, fora da rotina, tudo favorece a participação dos alunos e o envolvimento de distintas pessoas e entidades. Mas o problema maior continua a ser a colaboração na sala de aula, no coração do trabalho pedagógico.
A proposta de «coadjuvações» em sala de aula é um conceito frágil para uma boa ideia. Certamente que é útil do ponto de vista da disciplina e do enquadramento dos alunos, sobretudo em turmas grandes. Mas não pressenti uma mudança de lógica pedagógica. Trata-se de uma copresença, longe de um verdadeiro trabalho colaborativo.
A pedagogia está mais presente nas crianças pequenas e vai diminuindo com o avanço das idades. Enquanto a atenção está centrada nos alunos, a pedagogia prevalece; quando se dirige para o conhecimento, desaparece. Estranha realidade. A preocupação principal da pedagogia tem de ser com o conhecimento e com a forma como este é apropriado pelos alunos.
António Novoa, Viagem: por escolas de Portugal. Porto Editora. (Texto abreviado)
Mito de Sísifo
Na mitologia grega, Sísifo foi condenado para todo o sempre a empurrar
uma pedra até ao cimo de um monte, caindo a pedra invariavelmente da
montanha sempre que o topo era atingido. Este processo seria sempre
repetido até à eternidade.
“I never teach my pupils; I only attempt to provide the conditions in which they can learn.” – Albert Einstein