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Jornal Escolar AE Muralhas do Minho | 2025-2026


Eu e o futuro

Turma 12.º B | 18-06-2026

Ao longo de três anos, um projeto a que os alunos chamaram “Contos Imperfeitos” contou também a história de quem o escreveu: o crescimento, o esforço, as hesitações e as conquistas.

Ilustração: Kim Barhemmat

Eu e o futuro

Rodrigo Barbosa

Estou no 12.º ano e, para ser honesto, ainda há dias em que tudo parece incerto. Testes, exames, pressão para escolher o futuro… às vezes, sinto que toda a gente já sabe exatamente o que quer, menos eu. Mas há uma coisa que tenho clara: quando acabar o secundário, quero tentar entrar na Academia Militar.

Não é só pela farda. É pela responsabilidade. Pela ideia de me tornar oficial do Exército Português e saber que o meu trabalho tem impacto real na sociedade. Também sei que não vai ser fácil, tenho de melhorar fisicamente, tentar acabar o ano com boas notas e preparar-me mentalmente para um ambiente exigente.

Às vezes, duvido se vou conseguir, mas depois penso que ninguém nasce pronto. A diferença está em continuar, mesmo com medo.

Ainda estou no 12.º.

Ainda estou a construir o caminho.

Mas todos os dias, quando estudo ou vou correr, sinto que já estou a dar os primeiros passos para o futuro que quero.

Entre setembro e o futuro

Eliana Alves

Sempre ouvi dizer que o futuro começa com uma escolha. O meu tem nome de mês: setembro.

Até agora, o futuro parecia distante, quase abstrato. Mas aproxima-se depressa, trazendo perguntas a que não sei responder com certezas. Vou para a universidade, dizem. Como se isso chegasse para explicar tudo o que sinto. Como se eu já soubesse exatamente quem vou ser, quando lá chegar.

Sei uma coisa com certeza: amo crianças. Gosto da forma como veem o mundo sem filtros, como acreditam que tudo é possível. Para mim, elas são o futuro da nossa vida, e talvez por isso é que eu queria tanto fazer parte do início do caminho delas. Educação Básica não é apenas um curso para mim, é um sonho que cresce em silêncio desde há muito tempo. Mas os sonhos também assustam.

Entre mim e esse futuro existe um exame de Matemática. Um exame que, por vezes, me faz duvidar de mim própria. Pergunto-me se vou conseguir, se sou capaz, se um número numa pauta pode decidir o meu caminho. A esse medo junta-se outro ainda maior que é o de desiludir os meus familiares e amigos, que sempre acreditaram em mim, mesmo quando eu própria duvidei.

O secundário passou rápido demais, como se cada dia tivesse sido comprimido num instante. Nunca esperei que estes anos me transformassem tanto, e agora sinto a surpresa misturada com nostalgia. Setembro aproxima-se carregado de incertezas, e eu avanço, mas hesito.

Foi numa dessas noites de dúvida que imaginei o futuro a responder-me.

Estou sentada em frente a um espelho. À primeira vista, vejo apenas o meu reflexo cansado, cheio de perguntas. Mas, pouco a pouco, a imagem muda. Do outro lado do espelho está alguém que reconheço de imediato: sou eu, alguns anos mais velha. O olhar é calmo, seguro, como se já tivesse aprendido a lidar com o que hoje me assusta.

— Estás com medo? — pergunta-me.

— Estou, — admito. — E se eu não conseguir?

Ela sorri, com uma tranquilidade que me desarma.

— Conseguiste. Não porque foi fácil, mas porque não desististe. O exame não te definiu. As dúvidas não te pararam. E o amor que tens pelas crianças levou-te mais longe do que imaginas.

Quero fazer mais perguntas, mas o reflexo começa a desfazer-se.

—Confia — diz ainda. — Setembro não é o fim de nada. É o começo.

Quando volto ao presente, o espelho mostra apenas quem sou agora. O medo continua lá, mas já não está sozinho. Agora caminha ao lado da esperança.

Talvez crescer seja isto: avançar mesmo sem todas as respostas. Talvez setembro não seja o mês das certezas, mas sim o mês da coragem.

Eu não sei exatamente quem serei quando o futuro chegar. Sei apenas que vou tentar. E, por agora, isso tem de ser suficiente para seguir em frente.

O futuro que me habita!

Bia Ferreira

Um dia encontrei o Futuro sentado à minha frente. Não era assustador, nem distante. Tinha o meu olhar, um pouco mais calmo, e um sorriso que parecia dizer “Sobrevivemos.” Sentei-me ao lado dele com mil perguntas presas na garganta. Queria saber se ia doer muito, se eu ia errar, se algum sonho ficaria pelo caminho. Mas o Futuro não respondeu logo.

Pegou-me na mão, a mesma mão, só um pouco mais firme.

— Confia em mim, disse ele. Eu sou feito de todas as tuas tentativas.

Olhei melhor e vi marcas que reconhecia, as noites em claro, os medos que finjo não ter, as escolhas feitas com o coração a tremer. Vi também coisas novas, coragem onde antes havia dúvida, paz onde antes morava pressa.

— Nem tudo correu como imaginavas, — confessou o Futuro.

— Mas tudo te levou até mim.

Perguntei se o amor tinha ficado. Ele sorriu de um jeito bonito, quase cúmplice. Ficou. Mudou. Cresceu. Às vezes doeu. Mas nunca foi em vão. Perguntei se eu tinha conseguido ser quem queria. O Futuro pensou um pouco antes de responder:

— Não exatamente… e ainda bem. Tornaste-te alguém melhor.

Antes de se levantar, ele deixou-me um último segredo:

— O Futuro não acontece de repente. Ele constrói-se todos os dias, quando escolhes continuar.

Quando dei por mim, estava sozinha outra vez. Mas já não sentia medo. Porque percebi que o Futuro não está à minha espera em algum lugar distante.

Ele caminha comigo, passo a passo.

Porque eu o escrevo

Gonçalo Almeida

O futuro apareceu-me sem avisar.
Não veio com respostas nem com promessas. Veio como um ecrã vazio, à espera que alguém escrevesse algo que fizesse sentido.
No início, tentei ignorá-lo. Havia sempre algo mais fácil do que pensar no que vem a seguir. Mas ele não desapareceu. Ficava ali, em silêncio, como uma janela aberta que não se pode fechar.
Comecei a imaginá-lo.
Cidades desconhecidas. Línguas diferentes à minha volta. Ruas que nunca percorri. Um portátil aberto numa mesa qualquer, código a preencher o ecrã, enquanto lá fora tudo era novo.
Não era só sobre trabalhar. Era sobre sair. Explorar. Não ficar preso ao mesmo ponto no mapa.
Mas o futuro não é só movimento.
Também tem peso.
É perceber que cada escolha fecha outras portas. Que cada passo em frente obriga a deixar algo para trás. Não dá para testar tudo ao mesmo tempo; é preciso escolher um caminho e segui-lo.
E é aí que deixa de ser uma ideia. Passa a ser responsabilidade.
Há dias em que parece simples: seguir em frente, aprender, melhorar. Outros dias, nem tanto. As dúvidas aparecem sem aviso, como erros num programa que parecia estar certo.
Pequenas falhas obrigam a parar. Rever tudo. Começar outra vez.
Talvez seja isso que ninguém diz sobre o futuro. Não é um destino claro.
É mais parecido com código em construção, cheio de testes, falhas e versões incompletas. Nada funciona perfeitamente à primeira. E, mesmo quando funciona, há sempre algo a melhorar.
Com o tempo, deixei de o ver como algo distante.
O futuro não está à frente.
Está aqui. Nas decisões pequenas que parecem não importar. No esforço que ninguém vê. No risco de tentar, mesmo sem garantias.
E, de repente, já não parece tão abstrato.
Porque o futuro não vai acontecer por acaso.
Vai acontecer porque eu o escrevo.

O espelho do futuro

Margarida Carvalho

Encontrei o meu futuro numa tarde comum, daquelas em que o céu parece cinzento por dentro e por fora. Estava sentada no banco do jardim, onde costumo ir quando preciso de pensar, ou talvez de fugir. Reconhecia-a sem esforço: era eu, mas com mais marcas no rosto e menos peso nos ombros.

Sentei-me ao seu lado com o coração inquieto. Havia nela qualquer coisa de tranquilo que me desarmava. Não parecia alguém que tivesse vivido a vida perfeita, parecia, sem dúvida, alguém que tinha aprendido a aceitar as imperfeições. Olhei para as suas mãos, eram as minhas, só que mais seguras, e senti uma pontada de vergonha por muitas vezes duvidar de mim própria.

Percebi que os medos que hoje me encolhem não desaparecem por magia. Transformam-se. Alguns perdem força, outros tornam-se lições. E os sonhos, esses, não ficam intactos à espera de condições ideais. Ou ganham corpo através da coragem, ou ficam para sempre na gaveta das intenções.

O meu futuro não tinha ar triunfante. Tinha cicatrizes, cansaço e, ainda assim, esperança. Foi isso que mais me tocou: perceber que não preciso de ser perfeita para chegar até ele. Preciso apenas de continuar.

Quando me levantei, já não estava ali. Mas senti uma espécie de abraço invisível, como se tivesse recebido permissão para falhar e tentar de novo. Pela primeira vez, o futuro deixou de me assustar. Era humano. Era possível. Era eu.

Anseio do futuro

José Neto

Não consigo pensar no instante exato em que começou, talvez numa noite qualquer, olhando para o céu, pensando sobre a vida e imaginando o futuro traçado. Ou quem sabe, num sonho confuso e, ao mesmo tempo, tão planeado. Apenas sei que, sem pensar, iniciei um diálogo com o meu “eu futuro”.

Ele não se distanciava muito de mim. Exibia um cansaço evidente, mas também uma segurança notável. A sua fala era pausada, como a de alguém marcado por erros. E, então, questionei-o: “E então, realizaste os teus sonhos?” Ele hesitou, e isso incomodou-me.

“Realizei o quê?” perguntou por fim.

“Sei lá... ter sucesso na vida. Ser enfermeiro ou veterinário... ainda estou indeciso,” disse eu.

Ele sorriu, um sorriso compreensivo, como quem finalmente entende algo. “Acreditas mesmo que a vida é tão simples assim?” indagou.

Irritei-me um pouco. “Então, não sou ninguém?” perguntei.

“Não foi isso que eu disse,” respondeu. “Apenas afirmo que as coisas não são tão certas.”

Num silêncio constrangedor, eu ansiava por respostas claras, sim ou não, mas ele soava como um professor exausto. Perguntei-lhe:

“Olha, sabes que o meu sonho é ser enfermeiro ou veterinário. Adoro ajudar, tanto pessoas quanto animais, não importa.”

Ele fitou-me como se soubesse disso há anos. “E continuas a sentir essa paixão ?” acrescentou. Isso acalmou-me um pouco.

Insisti: “Mas então, conseguiste?”

Ele encolheu os ombros: “Esforças-te muito. Por vezes falhas, pensas desistir, mas persiste.” Não era a resposta ideal, mas tampouco era má.

Perguntei: “E compensa?”
Ele demorou um pouco mais, antes de responder. “Sim. Mesmo quando a situação parece desfavorável.”

Calei-me, sem saber o que dizer. Talvez porque eu queria uma garantia, algo que o futuro não oferece.

Antes de desaparecer, ou antes de eu despertar, não sei ao certo, ele disse: “Não precisas de saber agora. Apenas nunca pares de tentar.” E foi isso.

Ainda não tenho a certeza se serei enfermeiro ou veterinário. Às vezes, nem sequer sei se serei capaz. Mas creio que continuarei a dialogar com esse meu eu do futuro ocasionalmente. Mesmo que as suas respostas não sejam as mais claras.

O arquiteto do amanhã

Tiago Garceis

O teu futuro começa com um despertar tranquilo no ano de 2045. Vives numa casa moderna que flutua sobre o mar, onde a luz do quarto aumenta devagar para te acordar com calma. No futuro, o tempo é o teu bem mais precioso e tu geres o teu dia sem pressas. Na cozinha, o teu assistente digital mostra-te que o trabalho da manhã está pronto e que tens um encontro marcado com um amigo.

O teu trabalho é fascinante: tu usas a tecnologia para curar a natureza. No teu estúdio, moves as mãos no ar para controlar hologramas de florestas que estás a ajudar a plantar no outro lado do mundo. É um trabalho criativo que traz vida de volta ao planeta, e sentes-te realizado por fazer a diferença. À tarde, viajas num transporte rápido e silencioso até à cidade. Lá, o ar é puro e as ruas estão cheias de árvores. Encontras o teu amigo num café e conversam durante horas, olhando-se nos olhos, sem telemóveis a interromper. As pessoas finalmente aprenderam que estar presente é o que mais importa.

No final do dia, voltas para o teu refúgio no oceano. Debaixo de um céu cheio de estrelas, sentas-te a relaxar e sentes uma paz profunda. Percebes que a vida que tens — equilibrada, tecnológica e cheia de propósito — foi construída pelas escolhas que fizeste hoje. Tu não vives apenas no futuro; tu ajudaste a criá-lo.

A arte de crescer sem certezas

Daniela Purificação

Ela chamava-se Leonor, tinha dezoito anos e achava que crescer era uma espécie de erro que ninguém tinha coragem de admitir. À noite, deitada na cama, imaginava o futuro como um corredor comprido e escuro, onde estavam escondidas coisas como responsabilidades, despedidas e palavras difíceis de dizer. Os adultos diziam-lhe que crescer era natural, mas nunca lhe explicaram o porquê que, à medida que cresciam, pareciam que se esqueciam de rir e aproveitar a vida de forma bonita.

Estava prestes a entrar na universidade e sentia que o futuro tinha decidido correr mais depressa do que ela. Durante anos, a palavra “universidade” soara distante, mas agora aparecia em todas as conversas, em perguntas que começavam sempre da mesma forma: “Já decidiste o que vais seguir?”, e Leonor não sabia responder. Sabia apenas que tinha medo. Esse medo não era de estudar, nem de aprender coisas novas, era de crescer de repente, de deixar de ter tempo para errar, de escolher um caminho que se tornasse definitivo. Olhava para os adultos à sua volta e perguntava-se em que momento tinham deixado de duvidar, ou se apenas tinham aprendido a esconder melhor as dúvidas. A universidade parecia-lhe uma porta pesada que, uma vez aberta, não permitiria voltar atrás.

Nos dias antes de partir, Leonor andava pela casa como se estivesse a despedir-se silenciosamente de cada divisão. O quarto, onde tinha aprendido a ser sozinha, sem se sentir só, a cozinha, onde se davam as conversas importantes, tudo lhe lembrava que crescer também era aprender a deixar lugares para trás. Na véspera da partida, sentou-se com a mãe à mesa da sala. Confessou-lhe que tinha medo de não ser suficiente, de se perder no meio de tantas pessoas e de acordar um dia e não se reconhecer. A mãe ouviu sem interromper e, no fim, explicou-lhe que ninguém entra na universidade, sabendo quem é, e esse lugar não existe para criar adultos prontos, mas pessoas em construção.

No primeiro dia de aulas, Leonor atravessou o corredor com o coração apertado e a mochila demasiado pesada, havia rostos desconhecidos, risos nervosos, passos apressados. Sentou-se num banco, respirou fundo e percebeu que não estava sozinha no medo. À sua volta, todos pareciam fingir segurança, enquanto aprendiam a crescer. Nesse momento, o futuro deixou de ser um inimigo distante, continuava assustador claro, mas agora parecia partilhado. Crescer não é saber o caminho que temos de seguir, mas ter coragem de caminhar mesmo sem mapa. Levantou-se, entrou na sala de aula e, pela primeira vez, deixou que o medo caminhasse ao seu lado, em vez de a impedir de avançar.

Fez amizade com o Rui, que fingia que não se importava com nada, mas percebia-se que tinha um grande receio de desiludir os pais, e com a Sara, que parecia saber exatamente quem era, até admitir, numa noite tardia na biblioteca, que também se sentia perdida. Entre cafés, cadernos sublinhados e conversas interrompidas pelo cansaço, Leonor começou a criar raízes naquele lugar estranho.

No final do primeiro semestre, sentou-se sozinha, no mesmo banco onde se sentara no primeiro dia de aulas, a observar estudantes apressados e as folhas que caiam das árvores, recordou o medo que trouxe consigo no primeiro dia, que ainda permanecia lá, mas já não ocupava todo o espaço. Leonor levantou-se, respirou o ar frio da tarde e seguiu para a próxima aula. O futuro continuava incerto, mas, pela primeira vez, isso não a paralisava. Tornara-se apenas parte do caminho.

Carlos e o futuro

Tomás Gomes

Em 2090, as casas eram tão inteligentes que quase podiam adivinhar o cansaço antes mesmo de sentirmos as pernas pesadas. No apartamento de Carlos, as luzes suavizavam para um tom de âmbar assim que ele entrava e a temperatura ajustava-se ao seu humor, processado por sensores invisíveis nas paredes. Não havia botões, apenas desejos silenciosos que a tecnologia antecipava com uma precisão matemática.

Certa noite, uma falha na rede deixou o bairro às escuras e em silêncio absoluto. Sem a música ambiente e sem as recomendações do sistema, Carlos viu-se sentado no escuro, ouvindo apenas a sua própria respiração. Foi nesse vazio tecnológico que ele sentiu uma vontade súbita de abrir a janela, algo que o sistema de climatização desaconselhava há anos por questões de eficiência.

Ao puxar o vidro, o ar fresco da noite entrou sem filtros, trazendo o cheiro da terra húmida e o som distante de um pássaro noturno. Ali, parado entre o conforto programado e a incerteza do mundo real, Carlos percebeu que o futuro o tinha tornado tão eficiente que ele se tinha esquecido de como era sentir-se vivo.

Naquela escuridão, ele sentiu-se, pela primeira vez em muito tempo, verdadeiramente acordado.

O equilíbrio da estrutura

Pedro Sousa

No monitor do meu computador, as linhas azuis do projeto de engenharia entrelaçavam-se com uma precisão impressionante. Sempre soube que queria criar coisas, mas somente agora, aos trinta anos, compreendi que o desafio mais complexo a ser projetado não era de betão ou metal: era a minha própria existência.

Reclinei-me na cadeira e respirei profundamente. O escritório estava calmo, mas não era uma tranquilidade vazia; era a serenidade de quem é mestre no que faz. Eu era um engenheiro, valorizado e satisfeito, exatamente como imaginei em menino. Contudo, o meu verdadeiro êxito não estava nos certificados pendurados na parede.

O meu relógio sinalizou que era hora de sair. Guardei os documentos e fui embora.

Ao chegar a casa, a luz do hall iluminou o rosto da minha mulher, que me recebeu com um sorriso que entendia todos os meus silêncios. Naquele abraço, enquanto compartilhávamos as novidades do dia, senti o stress a dissipar-se. Eu era casado com a minha melhor amiga e, naquela conexão, encontrava a base de toda a minha segurança.

Na escola, diziam-me que o futuro era incerto. Mas ali, sentado à mesa do jantar, cercado pelo que conquistei com dedicação e amor, percebi que a fórmula estava certa. Entre contas e carinho, eu havia alcançado o mais essencial: finalmente, era um homem feliz.

O chef do futuro

Gonçalo Pires

Em 2042, o teu dia começa numa cozinha cheia de luz. Tu és um Chef de Comida Natural. Não é uma cozinha comum; aqui, crias pratos incríveis usando apenas o que a terra dá de melhor, sem estragar o planeta. As tuas receitas são famosas, porque alimentam o corpo e trazem alegria ao coração.

Lembras-te de como tudo parecia difícil em 2026? Naquela altura, tinhas muitas dúvidas sobre o amanhã. Mas hoje, ao ver o sorriso das pessoas que provam a tua comida, percebes que cada desafio valeu a pena. Tu não apenas cozinhas; tu espalhas saúde e carinho.

O teu segredo é simples: usas máquinas modernas para ajudar, mas o toque principal vem sempre das tuas mãos. O teu trabalho é respeitado e ajuda muita gente a viver melhor. À noite, sentas-te a descansar e sentes um grande orgulho no caminho que escolheste.

O futuro que tanto te preocupava tornou-se na tua maior vitória. Descobriste que a felicidade está em fazer o bem de forma simples e honesta. A vida agora é leve, doce e cheia de sentido.

Entre o fim e o começo

Ana Catarina Rodrigues

Acabámos hoje.
Ainda ontem parecia que o tempo não passava — aulas infinitas, testes que nunca mais acabavam, intervalos sempre curtos demais. E agora, de repente, acabou. O secundário, aquele lugar que era praticamente um mundo inteiro, ficou para trás como se fosse só um capítulo.

Estou parada a olhar para o portão da escola, algo que antes nunca me tinha feito parar para pensar tanto como está a fazer hoje, hoje tenho sensação estranha de que alguma coisa gigante aconteceu… mas ainda não consigo perceber bem o quê.

E de repente, sem sequer me aperceber, dou por mim a pensar em como estará tudo daqui a dez anos.

Penso nisso como se fosse um lugar. Um sítio distante onde existe uma versão de mim que já sabe tudo aquilo que hoje me confunde. Que já decidiu, que já falhou, que já tentou outra vez. Uma versão de mim que não fica acordado à noite a pensar “e se?” para tudo.

Mas agora… agora são só dúvidas.

E se eu escolher o caminho errado?
E se tudo aquilo que planeei mudar?
E se nos perdermos uns dos outros?

Olho à minha volta. Eles estão todos aqui. Sempre estiveram — nas manhãs de sono, nos trabalhos de grupo que acabavam em risos, nas fases estranhas, nas versões de nós que já nem reconhecemos bem.

Eles viram tudo.

Viram quando eu não sabia quem era.
Quando achei que sabia.
Quando voltei a não saber.

E talvez seja isso que mais custa neste fim: não é só deixar um lugar. É deixar uma versão de nós que só existia aqui, com estas pessoas, neste tempo.

Mas depois há outra coisa. Uma espécie de esperança teimosa.

Imagino-nos daqui a dez anos.

Espalhados.
Cidades diferentes.
Países diferentes, talvez.
Vidas completamente diferentes.

Alguém vai estar a viver o sonho que sempre disse.
Alguém vai ter mudado de ideias mil vezes.
Alguém vai estar perdido outra vez — e tudo bem.

E mesmo assim… quero acreditar que se por acaso nos perdermos uns dos outros por um tempo, nos vamos reencontrar.

Num jantar qualquer, numa mensagem inesperada, numa tarde de verão em que alguém diz “vamos juntar toda a gente outra vez?”. E vamos.

E quando estivermos juntos, não vai importar quem seguiu que caminho.

Vamos falar das coisas que conseguimos.

Das que não conseguimos.
Das que ainda estamos a tentar.

E, no meio disso tudo, vamos reconhecer-nos.

Porque há coisas que não desaparecem.

As piadas internas que mais ninguém entende.
A forma como sabemos quando o outro não está bem.
A sensação de casa que, afinal, nunca foi um lugar — foram vocês.

Talvez crescer seja isto.

Aceitar que as coisas mudam.
Que os caminhos se afastam.
Que o tempo não volta atrás.

Mas também acreditar que algumas ligações são maiores do que tudo isso.
Hoje custa.

Custa fechar este capítulo.
Custa dizer “acabou” a algo que parecia infinito.

Mas, no fundo, acho que não queremos que acabe.

Queremos só que continue… de outra forma.

Daqui a dez anos, espero lembrar-me da fase que estamos a viver agora. Não como um fim, mas sim como um início, assustador, mas bonito.

E espero que, onde quer que estejamos, ainda consigamos encontrar maneira de voltar uns aos outros.

Nem que seja só para confirmar aquilo que, hoje, ainda estamos a tentar acreditar:

Que crescer não significa deixar para trás.
Significa levar connosco — mesmo que o mundo nos leve para longe.

O futuro ao alcance da mão

Diogo Fernandes

A luz da manhã não vinha de lâmpadas, mas das próprias paredes, que se ajustavam suavemente ao ritmo do João. O “futuro” de que tanto falavam não era feito de naves espaciais ou metal frio; era feito de silêncio, de árvores e de uma calma que parecia impossível noutros tempos.

João levantou-se e sentiu o chão morno sob os pés, uma superfície que parecia compreender o seu cansaço. Enquanto caminhava para a cozinha, a casa, que ele tratava quase como uma amiga, murmurava-lhe a previsão do tempo e a qualidade do ar. Tudo ali parecia respirar em sintonia.

Não havia pressa. O desespero por produzir ou ganhar dinheiro tinha sido substituído por algo muito mais simples: cuidar do que é comum. Nas fábricas, bactérias e tecnologia trabalhavam juntas para transformar resíduos em recursos, sem desperdícios, num ciclo que parecia natural.

Ao sair à rua, o João viu vizinhos a conversar, sem telemóveis a roubar-lhes a atenção. As pessoas olhavam-se nos olhos. As cápsulas de transporte deslizavam silenciosamente entre prédios cobertos de musgo e madeira.

Ele lembrou-se das histórias que o avô contava sobre um tempo em que se vivia para trabalhar. Ali, o trabalho era apenas uma forma de curiosidade. Hoje, por exemplo, o dia do João ia ser passado a desenhar corredores para que as aves pudessem regressar à cidade.

Enquanto caminhava, percebeu que o medo de sermos substituídos pela tecnologia tinha acabado. Simplesmente, deixámos de tentar dominar a natureza e começámos a viver com ela. O futuro não veio com um grande estrondo; veio com a decisão de evoluirmos, de sermos, finalmente, mais humanos.

Eu e o futuro

Inês Esteves

Nunca pensei que o futuro tivesse uma voz.
Sempre o imaginei distante — quase intocável,
como uma linha no horizonte que recua sempre que damos um passo.
Mas, naquela noite, ele sentou-se ao meu lado.
No início, não disse nada.
Ficou apenas ali, em silêncio,
como se já soubesse tudo o que eu ainda tentava entender.
“Estás com medo”, disse por fim.
Não era uma pergunta.
Olhei para ele.
Não tinha idade.
Podia ser mais velho do que eu…
ou talvez fosse apenas aquilo em que eu ainda não tive coragem de me tornar.
“Estou cansada”, respondi.
“De não saber.”
Ele sorriu — não com pena,
mas com uma calma que me irritou.
“Tu nunca vais saber tudo.”
Aquelas palavras bateram mais forte do que eu esperava.
Logo eu…
que preciso de respostas,
que tento prever cada passo,
que me agarro ao controlo como se isso me impedisse de cair.
“Então para quê tentar?”, perguntei.
“Para quê pensar tanto? Para quê carregar medos que ainda nem aconteceram?”
Ele inclinou-se ligeiramente para a frente.
“Porque, mesmo assim… continuas a ir.”
E eu fiquei em silêncio.
Porque era verdade.
Mesmo com medo.
Mesmo sem certezas.
Mesmo perdida dentro dos meus próprios pensamentos.
Eu continuava.
“Eu não sou um destino”, disse ele.
“Sou aquilo que nasce de cada escolha tua.”
As palavras ficaram suspensas no ar, como se pesassem mais do que deviam.
“E se eu escolher mal?”
Ele não hesitou.
“Vais escolher.”
O meu peito apertou.
“E depois?”
A voz dele baixou, quase como um segredo.
“Depois… levas isso contigo.”
“Transformas.”
“E tornas-te alguém que não existia antes.”
O silêncio caiu entre nós —
mas, desta vez, não assustava.
Era um silêncio cheio.
Como se algo, dentro de mim, estivesse finalmente a encaixar.
Levantei-me.
O medo ainda estava lá.
Mas já não tinha a mesma força.
“Vou voltar a ver-te?”, perguntei.
Ele sorriu — e havia ali algo que eu nunca tinha visto antes.
“Não.”
O coração acelerou.
“Por que, a partir de agora…” — fez uma pausa — “vais começar a ser eu.”
Fiquei imóvel.
E, nesse instante, percebi:
O futuro nunca esteve à minha frente.
Nunca foi um lugar onde eu tivesse de chegar.
O futuro…
é este instante em que escolho avançar,
mesmo sem garantias,
mesmo sem certezas,
mesmo com medo.
Respirei fundo.
E, pela primeira vez, dei um passo
não porque sabia o que vinha a seguir — mas porque, finalmente, já não precisava de saber.

Pensar o futuro

Miguel Lameira

O futuro é algo em que todos nós pensamos, uma vez que gostamos de imaginar o que vamos fazer depois, mas a verdade é que, por mais que pensemos, por mais que sonhemos sobre o que vamos fazer, isso não é o bastante para o fazer acontecer.

A realidade é que, se apenas ficarmos a pensar e nunca acabarmos por fazer nada, não vamos chegar a lado nenhum, mas não é por isso que pensar e sonhar não sejam importantes, pelo contrário, é por aí que tudo começa.

Com isso em mente, há alguns a dias estive a pensar. E então? O que é que eu quero fazer da minha vida? Até que cheguei a uma conclusão! Eu realmente não sabia o que é que queria fazer.

Então estive a pensar no que gosto ou gostaria de continuar a fazer, e vieram-me algumas ideias à cabeça.

A primeira é que eu gosto muito de arbitrar e fazer desporto, e até há alguns desportos em que eu sou realmente bom, mas, mesmo assim, reparei que não seria muito fácil chegar aonde eu queria com isso, para além de também ser algo muito impreciso.

Continuando a pensar, reparei que gostava de gerir dinheiro, ou seja, ver com o que realmente valia a pena gastá-lo e o que é que poderia fazer para ganhar mais, e com isso, finalmente, cheguei a uma conclusão, vou para a universidade, estudar Gestão.

Bem, é claro que o futuro é muito incerto, mas vou tentar esforçar-me para conseguir chegar onde quero, vou aproveitar as ofertas que me derem jeito, e mais importante que tudo vou fazer aquilo que quero e gosto.

Em breve

Sara Esteves

Quando pensamos no futuro, normalmente pensamos no que irá acontecer daqui a vários anos. Mas eu penso num futuro um pouco mais próximo. Mais tarde, este ano, vou para a universidade, começar a minha vida adulta.

Então, no futuro, espero ter decidido o que quero seguir e o emprego que quero ter, espero poder lidar bem com a grande mudança que vai ser, espero ter tempo depois das aulas para estudar e manter os meus hobbies, espero manter as amizades que são tão preciosas para mim, agora.

Nessa altura vou poder conduzir e fazer muito mais. Mesmo com todos estes desejos, não posso completamente saber o que irá acontecer. O futuro é imprevisível, mas todos temos projetos que gostaríamos de concretizar.

Folha em branco

Joana Rodrigues

Toda a gente começou logo a escrever.
Menos eu.

Fiquei a olhar para a folha em branco, a rodar a caneta entre os dedos, como se as ideias fossem aparecer por magia.
Mas não apareceram.

Porque, na verdade, eu não sabia como falar do futuro.
Como é que eu podia escrever sobre algo que ainda nem sei viver?

Olhei à minha volta. Havia colegas a escrever sobre profissões, viagens, sonhos perfeitos. Tudo parecia tão… certo.
E eu?
Eu só pensava nas dúvidas.
No medo de escolher mal.
No medo de não conseguir.
No medo de mudar… ou de ficar na mesma.

Baixei os olhos para a folha outra vez.
E escrevi:
“Eu não sei como vai ser o meu futuro.”
Parei.
Depois continuei.

“Mas sei que não vou ser a mesma pessoa que sou hoje. Porque todos os dias alguma coisa muda — mesmo quando parece que não.”
As palavras começaram finalmente a sair.
“Talvez eu falhe. Provavelmente vou falhar. Mas também vou aprender.
Talvez eu me perca às vezes. Mas também me vou encontrar.
E talvez o futuro não seja aquilo que eu imagino agora…, mas isso não significa que seja pior.”

Respirei fundo.
Pela primeira vez, aquilo fazia sentido.

“Eu e o futuro não somos duas coisas separadas.
O futuro começa nas escolhas que eu faço hoje — até nas mais pequenas.”

Olhei para a folha. Já não estava vazia.
E percebi um conceito simples:
Eu não preciso de ter tudo planeado.
Só preciso de continuar.

Medo

Mário Mateus

Dizem que o futuro começa hoje.
Mas ninguém explica como é que se dá o primeiro passo quando o chão parece inclinar-se.

Escolher o futuro fosse como escolher uma cadeira vazia numa sala.
Mas o futuro não é uma cadeira.
É um salto.
E eu… eu nunca soube saltar sem olhar para baixo.

Sempre me disseram: “Estuda, esforça-te, e tudo fará sentido.”
Mas, agora que o momento chegou, quase nada faz sentido.

Os dias passam como se fossem decisões adiadas.
E cada escolha pesa mais do que devia.

Ir para a universidade…
Significa crescer.
Mas crescer — dizem pouco sobre isso — é também perder.
Perder o conforto, perder a rotina, perder o colo invisível que sempre lá esteve.

Em casa, tudo é conhecido.
O cheiro das manhãs, o barulho da televisão,
a voz dos meus pais a chamar-me para jantar,
como se o mundo lá fora não estivesse a arder em possibilidades.

Ali… eu ainda sou filho.
Aqui fora… tenho de ser tudo.
E isso assusta.

Assusta mais do que eu consigo admitir.

Porque e se eu sair…
e falhar?

E se eu descobrir que não sou tão forte como pensava?
Que não sou tão inteligente,
tão preparado,
tão… suficiente?

E se eu voltar…
de cabeça baixa,
com sonhos rasgados nas mãos?

Mas depois… há outra pergunta.
Uma que não me deixa dormir.

E se eu ficar?
E se eu escolher o conforto…
e um dia acordar
com a sensação de que a minha vida ficou por viver?

Os meus pais dizem: “Aqui tens sempre lugar.”
E isso… devia acalmar-me.

Mas pesa.

Pesa porque sei que um dia…
esse lugar já não será meu.

Eu não quero viver à sombra de um teto para sempre.
Mas também não sei se sei viver sem ele.

Talvez crescer seja isto…
rasgar um pouco de nós mesmos
para caber num mundo maior.

Entre o teto que me protege
e o céu que me chama…
eu estou aqui. Suspenso.

E se cair…
que seja para aprender a levantar-me.

E se falhar…
que seja por ter tentado.

Porque pior do que perder…
é nunca ter saído do lugar.

E eu tenho medo.
Tenho mesmo.

Mas talvez coragem…
não seja não ter medo.

Talvez seja tremer…
e, ainda assim, dar um passo.

Ano letivo 2025-2026

“Writing is an exploration. You start from nothing and learn as you go.” – E. L. Doctorow