Escolapress
Jornal Escolar AE Muralhas do Minho | 2025-2026
Histórias de família
Turma 12.º B | 18-06-2026
A partir de relatos familiares, os alunos do 12.º B registaram experiências de vida ligadas à emigração, ao trabalho, à guerra e aos afetos.
Quando eu era jovem
Avô do Tiago
Quando eu era jovem, fui chamado para a tropa e tive de deixar tudo para trás: a minha casa, o meu trabalho e, sem saber na altura, a oportunidade de conhecer o grande amor da minha vida.
Enquanto estive longe, trabalhei arduamente, mas, nas noites mais silenciosas, havia algo que me trazia conforto. Não, não era apenas a ideia de regressar a casa – era algo especial. Eram as cartas. Sim, as cartas que trocava com uma rapariga que nunca tinha visto, mas que já fazia o meu coração bater de forma diferente. A vossa avó.
Tudo começou porque tínhamos um amigo em comum, e foi ele que sugeriu que trocássemos correspondência. Naquela época, não havia telemóveis, nem mensagens instantâneas. As palavras escritas à mão carregavam sentimentos profundos, e cada carta dela era um pedacinho de luz nos dias difíceis da tropa. Foi ali, entre letras e papéis, que comecei a apaixonar-me.
Quando a tropa acabou, fui direto para a terra da vossa avó, onde nunca tinha estado. A minha primeira paragem foi na fábrica onde ela trabalhava. Queria retomar a minha vida e, claro, conhecer pessoalmente aquela mulher incrível, que tanto significava para mim.
No dia em que entrei pela porta da fábrica, o destino resolveu agir. Lá estava ela, a trabalhar com o cuidado e a dedicação que eu já imaginava. Era ainda mais bonita do que tinha sonhado. O meu coração parecia que ia saltar do peito, mas não perdi tempo. Caminhei até ela, apresentei-me e, sem pensar muito, dei-lhe um beijo.
Ela não se afastou, nem ficou zangada. Na verdade, começou a rir-se, com aquele riso que eu já conhecia das cartas e que, desde então, nunca mais deixei de ouvir.
Foi assim que tudo começou, meus netos. A partir desse momento, ela tornou-se a pessoa mais importante da minha vida. E, até hoje, quando conto esta história, sinto a mesma alegria daquele dia.

A pedido do meu neto
Eu, Hilário Correia, tenho 77 anos e sou avô do Gonçalo Almeida. A pedido do meu neto, vou contar-vos um pouco das aventuras e desventuras dos meus últimos trabalhos.
Em maio de 1990, a empresa têxtil de Gandra, onde eu era o diretor técnico, fechou e 540 pessoas ficaram desempregadas. Como já tinha percebido atempadamente que a situação económica da empresa era insustentável, arranjei um compromisso com uma empresa de Braga para procurar máquinas e montar uma fiação em Frossos, Gonix.
À procura de máquinas pela Itália, França e Espanha, foi na Bélgica, em 1991, que encontraram uma fiação de algodão para comprar. Cerca de um ano depois já estavam a fabricar fios para várias tecelagens. Três meses depois, abandonei o projeto, porque fui convidado por um dos antigos patrões de Gandra, que já andava pela Rússia e precisava da minha colaboração. Aceitei.
Fui com ele à Rússia, à cidade de Cheboksary, a 700 km de Moscovo. A fábrica, Pikê, tinha na altura cerca de 5.000 funcionários. Eu tentava resolver vários defeitos de fabrico e passava lá três, quatro ou cinco vezes por ano, durante duas ou três semanas de cada vez. Não tinha ordenado — pagavam-me as viagens, o alojamento, carro da empresa e o motorista. Esse tratamento VIP fez com que colaborasse com eles durante sete ou oito anos.
Não tinha dificuldades no idioma, porque tinha tradutora. Em Portugal, dizia-se que as fábricas usavam “algodão russo”. Descobri lá que o algodão vinha, na verdade, do Cazaquistão, Uzbequistão — na altura o 3.º maior produtor mundial — e do Quirguistão. A comercialização e transporte em contentores desde Riga, na Letónia, até Portugal, é que eram domínio russo.
Mais tarde, a Têxtil Vizela decidiu montar uma fiação com máquinas usadas na zona de Bishkek, capital do Quirguistão, e fiquei lá como diretor durante alguns anos. Era um país muito pobre da ex-União Soviética, colado ao Uzbequistão e à China. Nas aldeias havia poucos apartamentos e degradados, e as casas eram feitas com blocos de barro e palha, telhados de chapa, sem casas de banho nem saneamento. As crianças não tinham vacinas e os operários ganhavam 50 euros por mês, sem direitos nenhuns.
Na fábrica havia operários russos, chechenos, muçulmanos, quirguizes — uma mistura de raças, religiões e crenças de fugir. Passei lá maus bocados, mas a necessidade de trabalhar e a teimosia do português deram-me força para continuar. Não falava russo e tinha de lidar com 250 operários. Os muçulmanos paravam todos os dias às três da tarde para se descalçarem, ajoelharem e rezar, batendo com a cabeça no chão durante dez minutos. Uma vez por ano faziam uma visita ao cemitério, estendiam uma manta sobre a sepultura, colocavam bolos de farinha com ervas, vodka e cerveja, e cantavam até anoitecer.
A solução foi aprender russo aos poucos: os dias da semana, as horas, as cores, e duas ou três palavras por dia. Um ano depois já sabia pedir comida. No início, num restaurante (uma tenda), tentei pedir dois ovos estrelados. Fiz o gesto, falei devagar, nada. Encostei os braços ao corpo e cantei “Có-córócócó” — mesmo assim não houve ovos. No dia seguinte, comprei dois ovos e perguntei na fábrica como é que se pedia aquilo em russo. Aos poucos fui aprendendo até saber pedir carne (“miassa”) de vaca (“carova”). Mas eu queria carne de vitela e pedi “baby de carova” — e entenderam. A necessidade aguça o engenho.
Outro problema inicial era aceitarem que eu mandasse neles. Um dia, ao chegar a casa, encontrei um grupo de crianças que me pediram uma “pichênia”. Não percebi, mas levei-as a uma loja e deixei-as escolher. Queriam bolachas. No dia seguinte estavam lá outra vez, e no outro, e no outro…
A minha segurança pessoal era um grupo de mecânicos da fábrica, a quem eu pagava às sextas-feiras, depois do trabalho, pão, chouriço e cerveja.
Na entrada da minha casa, era triste ver a cerca partida e o chão esburacado. Mandei o pessoal da fábrica fazer um banco de madeira, uma cerca nova, relva e uns canteiros. A partir daí, todos os casamentos da aldeia passavam por lá para tirar fotografias. E ai de quem faltasse ao respeito ao “Gaspadim” (Senhor Hilário).
Um dia senti uma dor no peito. Telefonei ao porteiro da fábrica, que correu a chamar uma médica da aldeia. Ela veio de bicicleta, examinou-me e disse que era um problema de coração e que ali não havia condições para tratar. Eu tinha bilhete de ida e volta — era dezembro — e vinha passar o Natal. Esperei oito ou dez dias, e quando cheguei a Portugal fui parar ao hospital de Gaia com uma artéria entupida a 90%. Voltei ao Quirguistão em janeiro e aguentei até chegar o meu substituto.
Isto é apenas o sumário de alguém que, por motivos profissionais, viajou e conheceu a indústria têxtil em Espanha, França, Bélgica, Suíça, Itália, Alemanha, Rússia, Uzbequistão e Quirguistão. Andei por lá pobre economicamente, mas regressei rico em conhecimento, culturas e mentalidades diversas.
Ah, trouxe da Quirguísia uma moto URAL russa com sidecar, do tempo da 2.ª Guerra Mundial, ainda com pneus da U.R.S.S.
No Quirguistão, sempre que um cão engorda… desaparece. E, junto à estrada, aparece alguém a vender espetadas. Tive dois cães e só acreditei, quando os meus desapareceram.
Quando fui tratado pela médica ao problema do coração, ela ligou um ferro de passar roupa da minha casa e passou-me o peito a ferro.
É frequente andarem patos e galinhas na rua. Um dia matei um pato com a roda traseira do carro. À noite apareceu uma mulher à porta a exigir 100 sómes quirguizes — um euro. Uma fortuna naquela terra.
E são estas as minhas memórias de um passado...

Guerra de Angola
História do avô do Diogo
O meu avô era mesmo miúdo, quando o obrigaram a ir para a guerra em Angola. Não havia volta a dar. Saiu com um nó na garganta, com um medo daqueles, deixando para trás a família e os amigos.
Quando chegou a Angola, tudo lhe caiu em cima: o calor que parecia queimar, aquela terra vermelha por todo o lado e o silêncio tão pesado do mato. Os dias lá eram uma carga — duros e cheios de não saber o que vinha a seguir, senão lutar pela Pátria. Marchava lado a lado com os outros soldados. Tornaram-se irmãos num instante, porque, naquela confusão, a vida de um dependia da do outro.
O meu avô era muito fechado sobre assuntos mais pesados. Ele só dizia que viu cenas que nenhum jovem devia ter de ver. Mas depois contava que, mesmo no meio daquele inferno, havia pontinhas de luz: uma carta de casa que chegava, meio rasgada, o calor de uma fogueira à noite, ou uma parvoíce qualquer que lhes tirava o medo da cabeça por uns segundos.
Quando voltou para Portugal, já não era, de todo, o mesmo que tinha partido. Trouxe cicatrizes que não se viam, mas também uma fé enorme de querer viver em paz.

Onde a vida decidiu começar
A história dos pais de Inês
Os meus pais nasceram no mesmo país, mas não no mesmo tempo da vida. Foi preciso que ambos se perdessem primeiro para que se encontrassem. A Suíça não era casa para nenhum deles; foi apenas o lugar onde tudo aconteceu.
O meu pai chegou cedo, com dezanove anos e a pressa típica de quem acredita que o mundo começa amanhã. Veio com um primo, com trabalho à espera e uma coragem que ainda não sabia que era coragem.
A minha mãe chegou mais tarde, com vinte e oito anos e o cansaço de quem já tinha amado demais. Tinha acabado de sair de uma relação longa, dessas que nos deixam sem chão. Queria fugir da terra, das pessoas, das memórias. Queria recomeçar, mesmo sem saber como.
Encontraram-se numa noite barulhenta, numa discoteca qualquer. Nada tinha de especial à primeira vista: amigos de amigos, conversas cruzadas, música alta demais para pensamentos sérios. Mas o meu pai viu-a e soube. Há encontros que não pedem explicação.
A minha mãe achou-lhe graça, mas não acreditava em começos. Ele era novo. Ela não queria nada. E foi-se embora, levando consigo a certeza de que aquilo ficava por ali.
Mas o meu pai não soube aceitar o fim de uma coisa que ainda não tinha começado. Tentou encontrar o hotel nessa mesma noite. Andou às voltas por ruas desconhecidas, como quem procura mais do que um endereço. Quando o encontrou, já era tarde. Voltou para casa com a noite inteira dentro do peito.
Na manhã seguinte, estava lá. À espera. Como se desistir nunca tivesse sido opção.
Quando a minha mãe o viu, surpreendeu-se. Perguntou-lhe o que fazia ali. Ele respondeu com uma calma que não se aprende: que não desistia facilmente e que só queria conhecê-la melhor.
Ela riu-se. Disse que tinha de ir trabalhar. Ele ofereceu boleia. Insistiu. E talvez tenha sido nesse instante pequeno, quase insignificante, que a vida decidiu mudar de direção.
A minha mãe entrou no carro. Nunca mais deixaram de se falar.
Casaram pouco tempo depois, como quem percebe que esperar já não faz sentido. Veio a minha irmã. Anos mais tarde, vim eu.
E, às vezes, penso que a minha história começou ali, naquela manhã, num país que não era deles, quando alguém decidiu não ir embora.
Porque há amores que não aparecem para nos salvar. Aparecem para ficar.

O que eu ouvi
História contada à Joana
Esta história chegou-me pela voz de quem já viveu longe de casa. Não veio de livros nem de arquivos, mas da memória de uma mulher sentada à mesa da cozinha, onde o tempo parecia abrandar.
A senhora Júlia falou sem pressa. Antes de começar, avisou-me que não sabia se tudo tinha acontecido exatamente assim. Disse que a vida fora do país mistura lembrança e saudade, e que há coisas que só se entendem muitos anos depois.
Contou-me que emigrou para França ainda muito nova, levada pela necessidade e por uma promessa de trabalho que parecia maior do que o medo. Deixou a aldeia numa madrugada fria, com uma mala pequena e o nome da mãe repetido em silêncio. “Naquela altura”, disse, “a gente partia sem saber se voltava.”
Em França, os dias eram longos e iguais. Trabalhou na limpeza, depois numa fábrica, sempre com o corpo cansado e a cabeça cheia de Portugal. Falava pouco a língua, mas entendia bem o cansaço. À noite, no quarto que dividia com outras mulheres, ouvia o comboio passar e pensava que aquele som parecia chamar por casa.
Foi num desses invernos que aconteceu o que nunca esqueceu. Trabalhava até tarde e regressava sozinha, sempre pelo mesmo caminho. Numa noite de nevoeiro, ouviu passos atrás de si. Não eram apressados nem próximos, mas constantes. Acelerou. Os passos continuaram. Quando parou e se virou, não havia ninguém.
“Naquele momento”, contou-me, baixando a voz, “percebi o que era estar verdadeiramente sozinha.”
Durante dias, evitou sair depois de escurecer. As colegas diziam que era o medo a falar, que a cabeça inventa quando o corpo está cansado. Mas Júlia sabia que não era só isso. Era a saudade acumulada, o peso de estar num país que não era o seu, onde até o silêncio soava diferente.
Nunca mais ouviu os passos. Ainda assim, passou a andar sempre acompanhada. Aprendeu que, longe da terra, as histórias que se trazem ajudam a proteger. Eram elas que lhe lembravam quem era, mesmo quando tudo à volta parecia estranho.
Quando terminou, Júlia ficou em silêncio por um momento. Depois perguntou-me se eu ia escrever aquilo. Disse-lhe que sim, que ia tentar não mudar o que ela sentiu.
Ela sorriu, com um misto de cansaço e orgulho.
“Então escreve assim”, disse. “Como quem ouve. Porque quem emigra leva histórias — e são elas que nos trazem de volta.”
É isso que faço agora. Esta história não é minha. Eu apenas a ouvi — e agora, deixo-a aqui, como me foi contada .

O destino
História da família do Tomás
O destino tem maneiras estranhas de aparecer e, no caso do meu avô, foi um imprevisto num dia de chuva que mudou tudo. O empedrado da aldeia estava muito molhado e perigoso, fazendo com que o carro derrapasse e fosse contra um muro. Ele ficou frustrado com o azar e precisava de ligar a alguém para pedir ajuda, então foi até ao café mais próximo, sem imaginar que aquele problema iria mudar a sua vida.
Quando entrou no café para usar o telefone, o barulho da chuva lá fora pareceu desaparecer. Sentada numa mesa, estava uma mulher de uma beleza tão grande que ele ficou sem palavras. Era a minha avó e, naquele momento, o meu avô esqueceu-se completamente do carro. Pediu para fazer a chamada, mas a verdade é que os seus olhos não conseguiam desviar-se dela, que o recebeu com um sorriso capaz de iluminar qualquer dia cinzento.
Para ganhar tempo e não ter de ir embora, pediu um café e começou a conversar, enquanto esperava pela boleia, ainda um pouco atordoado pelo encontro. O que era para ser apenas um telefonema rápido transformou-se numa ligação duradoura.
A partir daquele dia, a estrada molhada passou a ser a sua maior sorte: começou a ir mais vezes àquele café, as visitas tornaram-se encontros e o namoro não demorou a acontecer. O que começou com um susto na aldeia acabou por ser o início da história deles.

Rabiscos de liberdade
História da família da Daniela
Há cerca de 50 anos, os meus pais tiveram de viajar para França,
deixando-me, a mim e ao meu irmão, com a nossa avó. A minha avó, que já
tinha uma idade avançada, não estava habituada a lidar com crianças; ou
seja, deixava-nos fazer o que quiséssemos. Além disso, não sabia ler nem
escrever, pelo que tive uns meses cheios de liberdade.
Nessa altura, frequentava o primeiro ano de escolaridade. Eu era uma
aluna muito distraída, pois o que desejava era brincar com os meus
amigos. Já o meu irmão era bastante responsável.
Um certo dia, resolvi começar a faltar às aulas, e a minha avó nunca descobriu. Saía de casa, levava a pasta, escondia-a num cano e ia brincar. Aparecia na escola apenas para fazer as fichas de avaliação. Como não sabia ler nem escrever, fazia uns rabiscos muito bonitos e organizados no papel, como se fossem palavras, e ia mostrá-los à minha avó, que ficava muito orgulhosa do meu trabalho.
No entanto, tudo acabou quando a minha mãe descobriu o que eu andava a fazer, levando-nos para França com ela, onde acabei os estudos.

São apenas memórias de um passado...
História do avô do Gonçalo Pires
1963 – 1978
Trás-os-Montes – Paris
Negociar com contrabandista a viagem.
Início da viagem.
1.º Passar de Portugal para Espanha, na zona de Verín
Táxi até perto da fronteira, falar com uma pessoa desconhecida num lugar
marcado, pessoa essa que me vai levar até ao outro lado da fronteira.
2.º Chegada a Espanha: atravessar Espanha até à fronteira de França –
Hendaye
Vários dias de viagem com muito medo e sempre desconfiado de tudo e de
todos.
Havia lugares previamente combinados onde alguém me contatava e me
perguntava se era o João que vinha de Portugal, e, posteriormente, me
levava até ao próximo ponto de encontro.
Entretanto havia sorte ou azar relativamente ao trato que tinha com
estas pessoas, algumas muito amáveis, prestáveis e humanas, outras mal
falavam e apenas me tratavam como uma encomenda.
3.º Atravessar a fronteira Espanha – França
Por caminhos de terra batida e estradas asfaltadas estreitas e cheias de
curvas, nos Pirenéus. Fiz muitos quilómetros desesperado, sempre que via
luzes ao longe atirava-me para o chão. Estava muito frio e chovia, não
tinha muita roupa e as botas não eram muito confortáveis.
Cheio de dores, molhado e com frio, desisti e disse seja quem for que
venha não me vou esconder mais, e assim fiz.
Aparecem mais umas luzes e não me escondi. O carro para e sai uma pessoa
que vem na minha direção. Pensei: vou ser preso. A pessoa perguntou: “És
o João?” Respondi de imediato, pois afinal era a pessoa que me ia levar
para o lado francês.
4.º Hendaye – Paris
Esta pessoa levou-me a uma estação de comboios, comprou-me um bilhete
com destino a Paris “Gare du Nord". Deu-me algum dinheiro também.
Durante esta viagem, que foi curta, encontrei um casal que me perguntou
se tinha fome, deram-me comida, bebida, uns sapatos e um casaco.
5.º Chegada a Paris
Dirigi-me a Saint-Denis (barracas de lata) e procurei uma pessoa que era
minha conhecida e era onde eu ia ficar até encontrar trabalho e lugar
para ficar.
6.º Encontrar trabalho
Depois de muitos nãos e de ter decidido regressar sem trabalho e sem
dinheiro, enfim, estava no fundo do poço. O sonho estava morto.
Já sem esperança, alguém me perguntou se queria fazer limpeza numa
oficina. Aceitei de imediato.
Depois fiz limpeza noutra, ali perto. Mais tarde comecei a trabalhar na
fábrica da Citroën de St Denis, cheguei a chefe do armazém.
Aí estive 14 anos...

Prémio incomum
História da Sara
O meu avô ia frequentemente jogar às cartas nos cafés das aldeias vizinhas aos domingos.
Numa dessas alturas, jogou com um antigo conhecido seu e, depois de várias rondas, acabaram por ganhar. Era normal os vencedores receberem prémios tais como cabazes, garrafas de vinho ou, ocasionalmente, algum enchido mais especial. Dessa vez, porém, o prémio era um jovem cabrito, o que apanhou todos de surpresa, incluindo os vencedores. Como sempre, o meu avô voltou tarde, mas regressar tarde e trazer o cabrito com ele foi a combinação perfeita para deixar a minha avó furiosa. A minha mãe diz que se lembra perfeitamente de ouvi-la a dar um longo sermão ao meu avô, enquanto ela e o seu irmão brincavam com o animal no quintal.
No dia seguinte, ainda irritada com a situação, a minha avó obrigou o meu avô a ajudar a matar o cabrito para cozinhar.

O dia em que o avô tropeçou no amor
História da Bia
Há mais de sessenta anos, numa pequena aldeia onde todos sabiam o nome do cão do vizinho, aconteceu uma cena que ainda hoje faz rir toda a família.
O avô Eduardo era um rapaz vaidoso: gostava de pentear o cabelo com brilhantina e usava sempre a mesma camisa branca para ir à feira, “porque dava sorte”. Já a avó Rosa era conhecida por ser uma moça séria, que não se deixava enganar por conversas fiadas.
Numa manhã de domingo, Eduardo decidiu impressionar Rosa. Comprou uma maçã vermelha, a mais bonita da banca, e foi até ao largo onde ela costumava vender flores. Ia ensaiando o que havia de dizer:
— Bom dia, menina Rosa, trouxe-lhe esta maçã porque é doce… como o seu sorriso!
Mas o destino, travesso como sempre, tinha outros planos.
Quando se aproximou do balcão, Eduardo tropeçou… numa galinha! Caiu de joelhos, a maçã voou pelo ar e foi aterrar — adivinha onde? — dentro do balde de água das flores da Rosa!
A aldeia inteira riu. A avó Rosa tentou conter o riso, mas, quando viu o pobre Eduardo a tentar recuperar a maçã encharcada, não resistiu e disse:
— Se todas as tuas ofertas vêm molhadas assim, não sei se me caso contigo ou se te ponho a secar!
Eduardo ficou vermelho como um tomate, mas respondeu rapidamente:
— Então, se casares comigo, prometo trazer flores secas da próxima vez!
E não é que funcionou? Anos depois, sempre que alguém perguntava como se tinham conhecido, a avó Rosa dizia, com um sorriso malandro:
— Foi o único homem que me pediu em casamento… de joelhos e com uma galinha como testemunha!

Palavras finais
Professora Maria José Sá
Os Contos Imperfeitos chegam ao fim após três anos de caminho partilhado. Três anos de palavras, dúvidas, descobertas e coragem. A turma B, do 10.º ao 12.º ano, deixa agora este projeto, mas leva consigo muito mais do que textos escritos.
Foram anos de desafios constantes, de histórias que nasceram da imaginação de cada um — umas totalmente originais, outras com o apoio da inteligência artificial —, mas todas marcadas por algo maior: a vontade de tentar, de melhorar e de se expressar.
Chamaram-lhes “Contos Imperfeitos”, mas talvez seja precisamente nessa imperfeição que reside a sua beleza. Porque cada texto contou também a história de quem o escreveu: o crescimento, o esforço, as hesitações e as conquistas.
Hoje despede-se o projeto, mas não se apaga o que ele construiu. Ficam as memórias, o orgulho e a certeza de que escrever também é um ato de coragem.
Parabéns à turma B por estes três anos de dedicação, criatividade e superação. Que estas palavras continuem a acompanhá-los, mesmo depois do último conto.
Ano letivo 2025-2026
“Grandparents sort of sprinkle stardust over the lives of little children.” – Alex Haley